Especialistas alertam para aumento de infecções de HIV no DF

Distrito Federal tem aumento de casos nos últimos anos e jovens seguem como principal grupo afetado. Mortalidade segue em queda, graças à evolução nos tratamentos disponíveis. Especialistas orientam sobre riscos de transmissão

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Com mais de 15,5 mil pessoas vivendo com HIV/Aids no Distrito Federal, os dados mais recentes da Secretaria de Saúde revelam o crescimento no número de infecções. Entre 2020 e 2024, a taxa de novos casos subiu de 22,6 para 26 infecções por 100 mil habitantes — um crescimento de 15,04%. Apesar do aumento das testagens positivas, os dados apontam queda na mortalidade por aids, mas especialistas ouvidos pelo Correio alertam para maior atenção em relação à persistência das transmissões. 

O perfil das pessoas infectadas segue concentrado entre jovens de 20 a 29 anos, majoritariamente do sexo masculino e homossexuais. Chama a atenção que, nesse público, os de cor parda e com algum grau de escolaridade estão no topo da lista. Em relação à distribuição geográfica, o Plano Piloto concentrou o maior número de casos em 2024, enquanto, em 2020, Ceilândia, Taguatinga e Paranoá também apareciam como regiões de destaque.

Para o infectologista Gilberto Nogueira, do Hospital DF Star, da Rede D’Or, é necessário entender a diferença entre o vírus e a doença. “O HIV é o vírus que entra no organismo e começa a atacar o sistema imunológico, principalmente a célula CD4”, ele explica, ressaltando que, sem acompanhamento, a infecção pode evoluir. “Quando há uma queda importante das defesas, começam a surgir as infecções oportunistas; é essa fase mais avançada que chamamos de aids”. 

Sobre a transmissão, o médico reforça a importância da informação correta. “Qualquer pessoa pode ser infectada pelo HIV. A principal forma de transmissão ainda é a relação sexual sem preservativo, mas quem está em tratamento e com carga viral indetectável não transmite o vírus”. 

Menos mortes

Entre 2020 e 2024, o Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) registrou 448 óbitos no DF, com redução de 9,7% no coeficiente de mortalidade, que caiu de 3,1 para 2,8 óbitos por 100 mil habitantes. Ainda assim, a Secretaria de Saúde chama atenção para o fato de que as mulheres têm apresentado diagnóstico mais tardio, o que contribui para maior adoecimento e mortalidade desse grupo.

Contudo, um avanço foi feito. A Organização Mundial da Saúde (OMS) certificou o Brasil pela eliminação da transmissão vertical do HIV, de mãe para filho. Com esse reconhecimento, o Brasil passa a integrar um grupo seleto de nações que garantem que crianças nasçam livres do vírus, e se tornou o maior país das Américas a atingir esse marco.

O infectologista Gilberto Nogueira reforça que viver com HIV deixou de ser uma sentença de morte. “Hoje, uma pessoa que vive com HIV, faz tratamento corretamente e mantém acompanhamento médico pode ter uma vida normal. A pessoa pode trabalhar, estudar, se relacionar, constituir família sem transmissão e ter expectativa de vida igual à da população geral”.

Isso só é possível devido aos medicamentos antirretrovirais que o Brasil oferece. “O tratamento do HIV é altamente eficaz, feito com medicamentos bem tolerados, que controlam totalmente o vírus”, diz. 

Ele destaca ainda a importância da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), que é uma forma de prevenir a infecção pelo vírus. No DF, 3.942 pessoas utilizaram a PrEP na rede pública até dezembro do ano passado. “É uma estratégia moderna, disponível gratuitamente no SUS, que reduz em mais de 90% o risco de infecção. Consiste no uso de medicamentos antirretrovirais por pessoas que não têm HIV, mas possuem risco de ter, como pessoas com múltiplos parceiros, pessoas que acabam se relacionando sem preservativo ou pessoas que se relacionam, sabidamente, com outras pessoas que vivem com HIV”. 

Estigma

O aumento da infecção por HIV entre jovens tem preocupado pesquisadores e ativistas que atuam na área da saúde coletiva. Segundo o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Alexandre Grangeiro, as novas gerações apresentam uma taxa de crescimento da infecção maior do que a observada entre pessoas mais velhas.

“Isso se deve à redução do uso de métodos de proteção. Há uma desinibição do ponto de vista da prática sexual, em função da menor gravidade que a infecção tem para a sociedade hoje”, explica Grangeiro. De acordo com ele, os avanços no tratamento, especialmente com os antirretrovirais, acabaram reduzindo o medo em torno do vírus. “A expectativa de vida aumentou, a gravidade da doença reduziu, e isso faz com que as pessoas vejam o HIV como algo mais brando do que era anteriormente”, afirma.

“Se essa tendência for mantida, teremos uma epidemia mais intensa do que a que tivemos anteriormente. Esses marcadores sociais tendem a aumentar justamente entre quem já enfrenta mais desvantagens sociais”, completa.

Para o presidente da ONG Amigos da Vida, Christiano Ramos, 52 anos, que convive com o HIV há 34 anos, o contexto atual exige atenção redobrada. Diagnosticado em 1988, aos 18 anos, ele lembra que o início da epidemia foi marcado pelo medo e pela ausência de tratamento. “Na época, não existia remédio, não existia nenhum tratamento. A medicação só surgiu a partir de 1994. Eu fiquei esperando uma morte que não veio”, relata.

Christiano conta que escondeu o diagnóstico da família por anos e chegou a passar dois anos internado até conseguir recuperar a saúde. Hoje, leva uma vida plena e atua no apoio a pessoas vivendo com HIV. “Eu tive acesso a bons médicos e tratamento particular, algo que a maioria das pessoas não têm. Por isso, fundamos a ONG Amigos da Vida, para oferecer suporte jurídico, psicológico e social às pessoas carentes vivendo com HIV/aids”, explica.

Ele também chama atenção para o início cada vez mais precoce da vida sexual. “A gente percebe que os adolescentes estão começando a vida sexual por volta dos 14 anos. E ainda é muito difícil imaginar pais sentando com os filhos para conversar sobre sexo. Isso ainda é um tabu, mas é fundamental”, afirma.

Ativista LGBT, Christiano reforça que discutir HIV sem falar das chamadas populações-chave é ignorar parte central do problema. “No início, a aids era vista como um ‘câncer gay’, mas o próprio perfil epidemiológico mostrou que a aids não tem cor, não tem gênero, não tem raça e não tem classe social. Todo mundo está sujeito à exposição ao HIV”, destaca.

O comunicador e mobilizador social João Geraldo Netto, 43, também compartilha sua experiência com o diagnóstico. Ele descobriu o HIV aos 26 anos, em 2008, durante exames de rotina. “Eu me via com baixa percepção de risco. Quando veio o diagnóstico, foi muito assustador. Na época, não existia um protocolo nacional que garantisse tratamento para todo mundo”, lembra.

Casado há seis anos, à época, com outro homem, João relata o impacto emocional da notícia. “Eu fiquei com muito medo de ele estar infectado. Depois, descobri que me infectei antes do relacionamento, ou seja, já vivia com HIV”, conta. Segundo ele, o diagnóstico provoca um abalo profundo. “Não tem como não ter impacto. O HIV sempre teve um peso muito grande na vida pessoal e emocional de quem descobre”, afirma.

Apesar do medo inicial de sofrer discriminação, João diz que encontrou apoio. “Eu tive receio da reação da minha família, mas felizmente, nada disso aconteceu. Eu tive apoio de todo mundo”.

Por Painel da Cidadania
Fonte Correio Braziliense
Foto: Vitória Torres/CB

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