Uma dieta baseada em vegetais e com ingredientes de alto valor nutricional pode reduzir o risco de se desenvolver duas ou mais doenças crônicas graves ao longo da vida. A conclusão é de um estudo publicado na revista The Lancet Healthy Longevity, que usou dados de mais de 400 mil pessoas acompanhadas por uma década em seis países europeus. Cientistas da Universidade de Viena, na Áustria, investigaram a relação entre padrões alimentares e a progressão para a multimorbidade, incluindo câncer, enfermidades cardiovasculares e diabetes tipo 2.
A pesquisa combina informações de duas das maiores bases de saúde do mundo: o levantamento Epic (European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition) e o UK Biobank, ambos considerados marcos na epidemiologia nutricional por incluírem dados robustos sobre alimentação. A idade dos voluntários, que estavam saudáveis no início do estudo, variou entre 35 e 70 anos. Ao longo do acompanhamento, foram documentados mais de 6,6 mil casos de doenças combinadas — multimorbidade — entre os participantes.
Esse risco foi 32% menor em pessoas que seguiam uma dieta composta principalmente por alimentos como grãos integrais, frutas, verduras, legumes, oleaginosas e óleos vegetais minimamente processados. “Nosso estudo destaca que uma dieta saudável, baseada em plantas, não apenas influencia doenças crônicas individualmente, mas também reduz o risco de desenvolver múltiplas doenças concomitantemente em pessoas de meia-idade e em idosos”, resume a epidemiologista nutricional da Universidade de Viena Reynalda Córdova, primeira autora do artigo.
Índice
O padrão alimentar estudado pelos pesquisadores é medido por um índice específico, o Healthy Plant-Based Diet Index (hPDI), que diferencia alimentos vegetarianos benéficos daqueles considerados menos saudáveis, como refinados, adoçados ou ultraprocessados. Segundo a pesquisa, a cada aumento de 10 pontos no hPDI — correspondente a um consumo significativamente maior de vegetais, fibras e grãos integrais — houve redução consistente do risco de se desenvolver duas doenças crônicas na sequência.
Em ambos os bancos de dados analisados, o padrão se repetiu: quanto mais saudável a alimentação baseada em vegetais, mais baixo o risco de adoecimento múltiplo. Os pesquisadores, porém, observam a importância da qualidade da comida: dietas vegetarianas ou veganas ricas em ultraprocessados, farináceos brancos, bebidas açucaradas e produtos industrializados aumentaram a chance de multimorbidade no UK Biobank, embora esse resultado não tenha sido observado na pesquisa Epic.
Apesar dessas variações, os cientistas reforçam que não basta consumir alimentos de origem vegetal — é a qualidade deles que importa. A distinção, argumentam, é crucial em um momento em que cresce globalmente o interesse por dietas vegetais, seja por motivos de saúde, ambientais ou éticos. O artigo indica que muitos alimentos tecnicamente vegetarianos, como biscoitos, massas refinadas, doces e refrigerantes, têm baixo valor nutricional e podem contribuir para o desenvolvimento de doenças metabólicas e cardiovasculares.
“Muitos produtos produzidos a partir de plantas, especialmente as ‘carnes’ vegetais, são considerados alimentos ultraprocessados, ou seja, são formulações industriais fabricadas a partir de substâncias extraídas ou derivadas de outros alimentos (no caso, as plantas) e sintetizadas em laboratório com corantes, aromatizantes, conservantes e aditivos”, explica a médica nutróloga Marcella Garcez, membro da diretoria e professora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).
Paladar
Segundo a especialista, o processamento torna os alimentos mais agradáveis ao paladar e similares aos que se propõem a substituir. “Mas também é o que faz com que não sejam tão saudáveis quanto os in natura, podendo, dependendo da composição, aumentar o risco de certos problemas de saúde, como obesidade, colesterol e doenças cardiovasculares”, alerta.
“Não adianta excluir carne e viver de macarrão instantâneo”, reforça a nutricionista Denise Alves Perez, professora do Centro Universitário UniBH, em Minas Gerais. “O vegano saudável cozinha, planeja e escolhe bem seus alimentos.” Ela destaca que ainda é forte o mito de que o ser humano precisa de carne, ovos ou leite para sobreviver. “Uma alimentação vegana pode ser muito saudável. Leguminosas como feijão, lentilha, ervilha e principalmente a soja são excelentes fontes proteicas. Portanto, é totalmente possível atingir as necessidades calóricas diárias, que variam conforme peso corporal e nível de atividade física”, diz.
Os autores do estudo publicado na The Lancet Longevity observaram que as vantagens da dieta à base de plantas são diferentes, dependendo da faixa etária. Embora tanto adultos de meia-idade quanto idosos tenham se beneficiado do plano de refeições de vegetais saudáveis, o efeito foi mais forte em pessoas com menos de 60 anos no início do acompanhamento. Eles explicam que mudanças no metabolismo típicas do envelhecimento podem explicar o efeito, mas, ainda assim, mesmo entre os mais velhos, o padrão hPDI associou-se a um risco menor de desenvolver uma segunda doença após o diagnóstico da primeira.
Por Painel da Cidadania
Fonte Correio Braziliense
Foto: Pexels/Divulgação











