A startup Self Intelligence for Life desenvolveu uma plataforma que integra jogos digitais, sensores biométricos e estratégias terapêuticas não farmacológicas para auxiliar crianças com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) no controle das emoções. A tecnologia monitora, em tempo real, indicadores fisiológicos associados ao estresse enquanto a criança participa de jogos interativos.
Segundo a engenheira biomédica Gabriella Faria, CEO da startup e integrante da equipe de pesquisa, quando o usuário consegue se acalmar e manter um padrão respiratório adequado, recebe recompensas dentro do jogo, o que estimula a autorregulação emocional. “O jogo entende como a criança está se sentindo e oferece benefícios quando ela consegue se acalmar e regular as emoções”, explica.
O projeto surgiu a partir de estudos acadêmicos conduzidos durante o mestrado de Faria em engenharia biomédica, em um grupo que investigava técnicas de respiração e métodos não farmacológicos de redução do estresse. As pesquisas foram coordenadas pelas professoras Karina Rabello Casali e Tatiana Cunha, com apoio técnico e científico dos engenheiros Matheus Cardoso Moraes e Henrique Alves de Amorim. O sistema foi apoiado pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, em parceria com o Sebrae-SP.
A motivação prática veio da atuação clínica. Segundo Faria, a neuropsicopedagoga Renata Casali, especialista em reabilitação cognitiva e colaboradora do projeto, relatava dificuldades frequentes para acalmar as crianças antes do início das sessões terapêuticas. “Em alguns casos, esse processo levava de 15 a 20 minutos, comprometendo o tempo e a efetividade da intervenção”, afirma.
Embora tenha sido pensada inicialmente para crianças com TDAH, a plataforma também é utilizada por crianças no espectro autista e por aquelas com sintomas de ansiedade. O design dos jogos leva em conta especificidades sensoriais desse público, com atenção a cores, sons e estímulos visuais para evitar sobrecarga sensorial.
O sistema é composto por sensores biométricos, um aplicativo com jogos e uma plataforma de gestão voltada aos terapeutas. Os sensores, disponíveis nos formatos de cinta torácica, braçadeira ou clipe de orelha, monitoram a variabilidade da frequência cardíaca, indicador amplamente validado para avaliação de níveis de estresse. A tecnologia é semelhante à usada em smartwatches, mas com processamento e métricas específicas para fins terapêuticos.
Atualmente, a plataforma conta com oito jogos, com diferentes níveis de complexidade. Em um deles, a criança acompanha o ritmo de respiração de uma baleia para aprender padrões respiratórios mais lentos e regulares. Em outro, considerado mais desafiador, o jogador precisa organizar objetos corretamente enquanto controla a respiração, mesmo diante de estímulos que simulam pressão e distração. Cada sessão dura cerca de três minutos, tempo considerado suficiente para gerar efeitos mensuráveis.
O acompanhamento profissional é parte central do método. Cabe ao terapeuta planejar as sessões, selecionar os jogos mais adequados e apresentar os sensores de forma lúdica. A plataforma também oferece relatórios detalhados, que permitem acompanhar métricas como sinais fisiológicos, tempo de uso e desempenho ao longo do tratamento, informações que podem ser compartilhadas com as famílias.
A empresa destaca ainda a preocupação com o uso consciente de telas por crianças. A recomendação é de sessões curtas e supervisionadas: até três sessões diárias de três minutos em casa e, no consultório, geralmente no início e no encerramento do atendimento. O uso é indicado exclusivamente durante o acompanhamento clínico, não de forma autônoma pelas famílias.
Novos jogos estão em desenvolvimento, incluindo opções voltadas à estimulação da fala e recursos com uso de inteligência artificial para personalização mais avançada das atividades. Também está prevista a ampliação da plataforma para outras faixas etárias. “A ideia é criar versões menos infantis, capazes de atender outros públicos”, afirma Faria.
Por Painel da Cidadania
Fonte Correio Braziliense
Foto: Reprodução/Self Intelligence for Life












