A busca pelo emagrecimento rápido, impulsionada pela nova geração de medicamentos (GIP e GLP-1) e dietas restritivas, trouxe um novo desafio para a medicina: a segurança nutricional. A redução drástica do apetite pode levar à “fome oculta”, um estado em que o paciente perde peso, mas desenvolve carências severas de vitaminas e minerais que comprometem a saúde a longo prazo.
O estudo “Nutritional deficiencies and muscle loss in adults with type 2 diabetes using GLP-1 receptor agonists: A retrospective observational study”, publicado na revista acadêmica Obesity Pillars, e “Micronutrient and Nutritional Deficiencies Associated With GLP-1 Receptor Agonist Therapy: A Narrative Review”, publicado na revista Clinical Obesity, mostram que a perda de massa muscular pode representar de 25% a 40% do peso total perdido em pacientes que não fazem o aporte proteico adequado. Além disso, a deficiência de vitamina B12 e ferro é uma das mais frequentes devido à mudança na absorção e na ingestão alimentar.
Além da balança: riscos da perda de nutrientes
De acordo com Ricardo Dib, gastroenterologista do Delboni e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (SOBED), o sucesso de um tratamento não deve ser medido apenas pelo ponteiro da balança.
“O maior risco atual é o emagrecimento à custa de massa magra e nutrientes essenciais. Quando a ingestão de alimentos cai drasticamente, cada caloria precisa ser densa em nutrientes. Sem isso, o corpo entra em um estado de privação que afeta desde a imunidade até a função cognitiva”, explica o médico, mestre pela Universidade de São Paulo (USP).
As pesquisas apontam que a redução drástica do apetite impacta diretamente os níveis de micronutrientes. Entre as taxas de deficiência observadas em pacientes sob tratamentos intensos de perda de peso, destacam-se:
- Vitamina D e Ferro: frequentemente abaixo do nível ideal em grande parte dos pacientes após os primeiros 6 meses;
- Vitamina B12: redução significativa devido à alteração na velocidade de esvaziamento gástrico;
- Proteínas: a ingestão insuficiente está diretamente ligada à sarcopenia (perda de músculo), que compromete o metabolismo a longo prazo.
“Por isso, o monitoramento do tratamento é vital para identificar quedas em níveis de ferro, vitamina B12, vitamina D e proteínas antes que os sintomas se tornem crônicos”, explica o médico.
Sinais de deficiência de nutrientes
Segundo Ricardo Dib, os principais sintomas de deficiência de nutrientes no organismo são:
- Queda de cabelo e unhas quebradiças: falta recorrente de ferro, zinco ou biotina;
- Cansaço extremo e desânimo: pode indicar deficiência de vitamina B12 ou ferritina;
- “Brain fog” (confusão mental): dificuldade de concentração ligada à falta de complexo B;
- Cãibras e fraqueza muscular: perda de eletrólitos como potássio e magnésio;
- Cicatrização lenta e imunidade baixa: deficiência de vitamina C, D ou proteínas;
- Palidez e olheiras profundas: frequentemente associadas à anemia ferropriva;
- Alterações no paladar: sinal menos conhecido de carência de folato e B12.
Multivitamínico não substitui a comida
Muitos pacientes acreditam que basta uma pílula para compensar a falta de alimentação, mas isso não é verdade. “A matriz alimentar contém fibras e fitonutrientes que facilitam a absorção. O suplemento é um apoio, mas o foco deve ser manter uma base proteica mínima para proteger os músculos durante a queima de gordura”, finaliza o especialista.
Por Painel da Cidadania
Fonte Redação EdiCase
Foto: New Africa | Shutterstock










