“Mounjaro natural” pode ser risco à saúde, alerta especialista

Endocrinologista alerta que substâncias vendidas como alternativas caseiras ao Ozempic e ao Mounjaro não têm eficácia nem segurança comprovadas em humanos

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Diante do preço elevado e da dificuldade de acesso a medicamentos como Ozempic e Mounjaro, cresceu nas redes sociais a promessa de versões “naturais” desses remédios. Misturas de chás, cápsulas de berinjela, canela e outros fitoterápicos que prometem replicar o efeito dos análogos de GLP-1 no controle do apetite e da glicemia. Para especialistas, porém, a prática é enganosa e pode colocar em risco a saúde de quem a adota.

De acordo com a endocrinologista Dra. Michele Borba, parte do apelo desses produtos vem de estudos preliminares reais, mas mal interpretados. É o caso da berberina, um dos fitoterápicos mais citados nesse contexto: “Alguma fundamentação existe. A berberina foi testada em ratinhos e, nesses animais, apresentou algum efeito similar ao GLP-1. No entanto, os artigos científicos mostram que a absorção em humanos não se reproduz como acontece nos ratos”, explica a médica. 

Segundo Michele, esse tipo de dado é usado de forma distorcida por quem promove os produtos: “As pessoas que fazem propaganda enganosa usam essa parte científica, mas ela não se reproduz nem é comprovada em humanos.”

Uma população em busca de solução rápida

Para a endocrinologista, a procura por essas alternativas caseiras reflete um cenário de saúde pública preocupante: cerca de 60% da população brasileira vive com sobrepeso ou obesidade, condições associadas ao aumento de diabetes e hipertensão. “A população, no geral, está adoecendo. Por desinformação, ou por não buscar uma informação adequada, as pessoas acabam acreditando em coisas que são parcialmente verdade, mas que não têm fundamentação técnica”, afirma.

A busca também não se limita a quem tem indicação clínica. Segundo Borba, muitas pessoas sem sobrepeso ou obesidade recorrem aos produtos por motivação puramente estética, tentando uma alternativa mais barata aos medicamentos originais, o que aumenta a exposição a riscos, já que a procedência, o armazenamento e até as condições de aplicação dessas substâncias muitas vezes não são fiscalizados.

Sem dose segura, sem controle de qualidade

O principal problema apontado pela médica é a ausência de estudos de farmacossegurança para esses produtos. Sem definição clara de dose adequada, o risco de toxicidade aumenta. “Vão desde chás até substâncias que a gente não sabe o grau de toxicidade, e isso pode gerar lesão renal, lesão no fígado. A pessoa pode ter uma intoxicação e um quadro grave, como uma hepatite medicamentosa”, descreve.

Outro risco relevante é o abandono do acompanhamento médico. “Quando as pessoas começam a ter sintomas ou sinais de que algo está saindo do esperado clinicamente, muitas vezes já é uma situação de emergência”, alerta a endocrinologista.

Pacientes diabéticos e gestantes correm risco maior

A médica ainda chama atenção para grupos em que o uso indiscriminado desses produtos é especialmente perigoso. Pacientes diabéticos, por exemplo, costumam ter comorbidades associadas, como doença arterial coronariana, que podem ser assintomáticas. O uso de substâncias em dose inadequada e sem acompanhamento pode desestabilizar o quadro clínico e colocar a vida em risco, principalmente quando leva à suspensão de medicamentos essenciais para o controle da glicemia.

Pessoas com doenças metabólicas em geral, ou seja, hipertensão, diabetes, obesidade, colesterol alterado, também estão mais sujeitas a complicações como lesão renal e problemas oftalmológicos. Já para gestantes, o risco é ainda mais incerto: não existem estudos sobre o uso desses fitoterápicos na gravidez, nem sobre os próprios medicamentos originais nessa fase. “Podem ocorrer reações tanto de perda fetal quanto de má formação, sem falar dos riscos para a própria mãe”, alerta a especialista.

O caminho mais segur

Para quem não tem acesso aos medicamentos originais ou não deseja utilizá-los, a orientação da endocrinologista é buscar o sistema público de saúde. Segundo ela, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) oferecem acompanhamento com nutricionistas, psicólogos e, em muitos casos, orientação de endocrinologistas da rede.

Em casos de obesidade mais grave, os pacientes podem ser encaminhados para atenção secundária. No Distrito Federal, a rede pública de saúde já disponibiliza liraglutida e semaglutida para pacientes que se enquadram em protocolo clínico específico. “Não é algo que o DF não vem pensando em termos de saúde pública”, reforça Borba.

A médica também defende que a base de qualquer tratamento de peso ou diabetes segue sendo a mudança de estilo de vida, com acompanhamento profissional. “Precisa ser trabalhada a mudança de estilo de vida com ajuda de médico, nutricionista e educador físico, envolvendo exercício, qualidade do sono e alimentação”, afirma. Para o futuro, ela aposta na ampliação do acesso aos medicamentos originais à medida que patentes forem quebradas: “A gente já sabe que são remédios que trazem muitos benefícios, e as pessoas precisam, como saúde pública, ter acesso.”

Fonte Correio Braziliense
Foto: Reprodução/Magnific