Mudar ordem dos alimentos reduz glicemia no diabetes, diz estudo

Revisão de estudos com 389 pacientes de diabetes 2 mostra que deixar o carboidrato por último durante as refeições reduz a glicemia pós-prandial e os picos glicêmicos, associados a complicações cardiovasculares

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Alterar a ordem de ingestão de alimentos pode ser uma forma simples de controle do diabetes 2, segundo um estudo publicado na revista Acta Diabetologica. A pesquisa internacional, que teve contribuição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sugere que consumir os carboidratos por último têm um impacto direto na glicemia, reduzindo os picos de açúcar no sangue após as refeições. 

No artigo, os autores fizeram uma revisão de 17 ensaios clínicos randomizados (com grupo placebo), envolvendo 389 adultos com diabetes tipo 2. Os resultados mostram que a estratégia chamada carbohydrate-last — ou carboidrato por último — está associada a uma queda importante na glicose após as refeições. Em média, os participantes que adotaram essa ordem apresentaram uma redução de 42,7 mg/dL na glicemia após 60 minutos e de 13 mg/dL após duas horas, em comparação com aqueles que consumiram carboidratos primeiro ou sem uma sequência definida.  

De acordo com o estudo, começar a refeição com alimentos ricos em fibras, proteínas e gorduras — como saladas, legumes, carnes, ovos ou azeite — e deixar arroz, massas ou pães para o final pode ajudar a evitar os chamados “picos glicêmicos”. Esse processo é considerado prejudicial porque está associado a um maior risco de complicações do diabetes, como doenças cardiovasculares, danos renais e no sistema nervoso periférico. 

Combinação 

Os pesquisadores explicam que o efeito ocorre por uma combinação de mecanismos fisiológicos. Quando fibras, proteínas e gorduras são ingeridas antes dos carboidratos, o esvaziamento do estômago fica mais lento, o que faz com que a glicose seja liberada de forma mais gradual na corrente sanguínea. Além disso, há um aumento na liberação de hormônios intestinais, como o GLP-1, que estimulam a produção de insulina e melhoram o controle da glicose. Esse conjunto de fatores resulta em uma resposta metabólica mais equilibrada após a refeição.  

Outro ponto considerado relevante é o aumento dos níveis de GLP-1 e o atraso no esvaziamento gástrico entre os participantes que adotaram a estratégia, o que reforça o papel hormonal e digestivo na modulação da glicemia. Já em relação à hemoglobina glicada (HbA1c), que reflete o controle do diabetes a longo prazo, houve uma redução pequena, de cerca de 0,16%.

Segundo os autores, esse efeito modesto pode ser explicado pela curta duração de muitos dos estudos analisados, já que mudanças mais expressivas nesse marcador costumam exigir períodos mais prolongados de acompanhamento.

Apesar disso, os resultados são considerados promissores porque a estratégia é simples, não tem custo e não exige restrição alimentar. “Diferentemente de dietas mais rígidas, a proposta não envolve cortar alimentos ou contar calorias, mas apenas reorganizar a sequência em que eles são consumidos”, diz o artigo. Isso pode facilitar a adesão, já que muitas pessoas têm dificuldade em mudar completamente o padrão alimentar, mas conseguem adaptar hábitos de forma gradual.

“Para algumas pessoas, dizer para cortar ou reduzir drasticamente os cardoidratos, não é uma opção. Nesses casos, orientar sobre a sequência da ingestão de alimentos pode ser uma estratégia importante de adaptação”, acredita o endocrinologista Ricardo Pelluzo, de Curitiba (PR). “Até hoje muitas pessoas acham que o tratamento da obesidade ocorre apenas com foco, força e fé. Sem dúvida esses três F’s são importantes, mas também é necessário um quarto F: fisiopatologia. Ou seja, entender as mudanças que ocorrem no organismo e tratar com ciência médica”, complementa o médico nutrólogo Guilherme Giorelli, professor de Nutrologia, medicina do exercício e esporte e endocrinologia, em São Paulo (SP)

Perfil 

A maioria dos participantes dos estudos da revisão tinha diabetes tipo 2 em estágio inicial e fazia tratamento com dieta ou metformina, o que indica que os benefícios observados podem ser mais evidentes nesse perfil de paciente. Ainda não está claro se o mesmo efeito ocorreria em pessoas com doença mais avançada ou em uso de múltiplos medicamentos.

Os autores também destacam limitações importantes, como o número relativamente pequeno de participantes e a heterogeneidade entre os estudos, além da falta de dados de longo prazo. Por isso, defendem a necessidade de pesquisas mais amplas e duradouras para confirmar a associação e avaliar o impacto da estratégia na prevenção de complicações do diabetes. 

Três perguntas para Guilherme Giorelli, médico Nutrólogo, professor de nutrologia, medicina do exercício e esporte e endocrinologia 

Trocar a ordem dos alimentos no prato — deixando o carboidrato por último — pode realmente ajudar a controlar o diabetes? 

Sim, o estudo foi feito com número pequeno de pacientes, mas a resposta foi positiva. Durante a refeição, quando se deixa o carboidrato para o fim, o que vem antes é ingestão de proteína, gordura ou fibra. Os três retardam o esvaziamento gástrico por mecanismos complementares: a fibra alimentar exerce efeitos mecânicos, atrasando o acesso das enzimas aos carboidratos, enquanto proteína e gordura estimulam peptídeos intestinais como o famoso GLP-1 (famoso pelas canetas emagrecedoras) e também outros hormônios intestinais como colecistocinina (CCK) e peptídeo YY (PYY) que inibem a fome e também reduzem o trânsito gastrointestinal.

O estudo mostra que essa estratégia reduz o pico de açúcar no sangue após as refeições. Isso já é suficiente para trazer benefícios reais?

Os trabalhos analisados no artigo têm no máximo três meses de acompanhamento de pacientes. Se por um lado isso mostra que os resultados aparecem rápido, por outro precisamos de mais tempo de acompanhamento para avaliar os benefícios de longo prazo, porém, como comentei, apesar da amostragem pequena, ela mostrou resultados positivos. 

Mesmo com melhora na glicemia após as refeições, o impacto na hemoglobina glicada foi pequeno. Essa estratégia deve ser usada sozinha ou sempre combinada com outras mudanças na alimentação?

O paciente não precisa, e nem deve, escolher apenas uma estratégia quando ele pode ter mais resultado associado com outras estratégias. Por exemplo, usar semaglutida ou tirzepatida aumenta os efeitos do hormônio GLP-1, deixar o carboidrato para o fim da refeição também aumenta o GLP-1, assim como fazer um exercício de alta intensidade intervalada, o hiit. Mais GLP-1 significa mais saciedade. Com mais saciedade e menos fome fica bem mais fácil escolher um prato mais saudável na fila do restaurante a quilo, por exemplo. 

Fonte Correio Braziliense
Foto: Pexels/Divulgação