Uso de substâncias dos pais pode afetar a saúde mental dos filhos

Em consequência, na vida adulta, eles se tornam mais suscetíveis à depressão. Para os especialistas, apoiá-los, sobretudo em casos de divórcios, pode ser uma das maneiras mais eficazes para melhorar o bem-estar a longo prazo da família

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Os transtornos por uso de substâncias dos pais também foram muito mais comuns entre aqueles que se divorciaram, 35% contra 15% para quem continuou casado. Segundo os autores, a doença mental frequentemente coexiste com a ruptura familiar e pode contribuir tanto para o desgaste do relacionamento entre os genitores, quanto para ambientes domésticos estressantes que podem ter consequências duradouras para a saúde das crianças. 

“Apoiar os pais que enfrentam problemas de saúde mental e transtornos por uso de substâncias pode ser uma das maneiras mais eficazes de melhorar o bem-estar a longo prazo de seus filhos”, disse o coautor Philip Baiden, professor associado da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. “Nossos resultados reforçam a importância de serviços acessíveis de saúde mental e de tratamento para dependência química para as famílias.”

Pais não casados

Os pesquisadores também examinaram adultos cujos pais nunca se casaram. Esses participantes apresentaram 31% mais chances de depressão. No entanto, essa associação também foi amplamente explicada por doenças mentais e uso de substâncias pelos genitores. 

“Sabemos muito pouco sobre a saúde mental a longo prazo de adultos cujos pais nunca se casaram, embora esse histórico familiar esteja se tornando cada vez mais comum”, disse a autora senior Esme Fuller-Thomson, professora da Universidade de Toronto.

Segundo Juliana Gebrim, psicóloga clínica e neuropsicóloga pelo Instituto de Psicologia Aplicada e Formação de Portugal (Ipaf), o estudo reforça algo observado diariamente na prática clínica. “O cérebro infantil não responde apenas aos acontecimentos da vida, mas, principalmente, à qualidade das relações e do ambiente em que se desenvolve.”

Segundo a especialista, é natural que muitos pais associem a separação conjugal ao sofrimento emocional dos filhos. No entanto, não é apenas isso que conta. “Em muitos casos, a separação ocorre em contextos já marcados por conflitos persistentes, transtornos mentais, dependência de substâncias e instabilidade emocional dos cuidadores. São esses fatores que parecem exercer maior influência sobre o desenvolvimento emocional das crianças.”

A cientista observou ainda que a categoria “pais não casados” da pesquisa combinava uma grande variedade de situações familiares. Ela não conseguia distinguir entre crianças criadas por pais que coabitavam e aquelas criadas em famílias monoparentais.

Para focar na associação entre estado civil dos pais e saúde mental, independentemente de maus-tratos graves, os participantes que sofreram abuso físico ou sexual na infância foram excluídos. A amostra final incluiu 128.264 adultos, dos quais 25% haviam vivenciado o divórcio dos pais antes dos 18 anos e 1,7% tinham genitores que nunca se casaram.

“Este estudo sugere que a saúde mental futura das crianças é menos influenciada pelo estado civil dos pais do que pelos desafios que elas enfrentam durante o crescimento”, conclui Fuller-Thomson. “Esforços para reduzir doenças mentais e o uso de substâncias pelos pais podem ter benefícios que vão muito além dos próprios pais e ajudar a melhorar a saúde mental ao longo das gerações.”

Fonte Correio Braziliense
Foto: Imagem de magnific