Há quem veja a atividade física como obrigação; há quem, com prazer, abre um tempo do dia para ativar e mexer o corpo, e existem aqueles que têm o movimento como fundamento de vida. É assim que Clara Molina, 30 anos, professora de movimento, dançarina e diretora, define sua relação com a corporeidade. Seja na dança ou na prática de movimento livre, Clara vive a atividade como filosofia e relação com o mundo.
Molina pratica diversas modalidades, além da dança, que, para ela, conectam-se, como a somática, acrobacias, tricking, treino de força, calistenia, entre outros: “A dança é um percurso eterno que eu sigo, dá pra encaixar tudo que eu vivo dentro e fora dela. Pra mim, é um estado de ser”, conta.
O psicólogo e professor da Faculdade de Educação Física da UnB Renato Bastos João explica que corporeidade é uma forma de compreender o corpo e a mente como uma coisa só, superando a visão fragmentada que olha para ambas. “Buscamos entender a unidade corpo e mente, ou unidade corporeidade-subjetividade”, aponta. Ela significa, então, investigar as dimensões dos processos psicológicos que começam no corpo, buscando saúde biológica e mental, considerando o indivíduo e o coletivo.
Clara, na sua prática pessoal e quando leciona, percebe a conexão consigo mesma e na maneira que se relaciona com o mundo: “É autoconhecimento. É infinito, e isso me encanta muito. Não tem um fim, é sobre o processo, e não uma linha de chegada. Estar em movimento é estar em constante questionamento e inconformismo. Não sei o que seria de mim sem.”
Renato explica a relação com o movimento como algo que sustenta a existência: “Nós somos seres que vivemos nossa vida nos movendo. Mesmo sentados ou deitados, há uma atividade do corpo, da mente e das emoções. Tudo se move: o Universo, o planeta Terra”, explica. Para ele, a corporeidade guarda um fundamento de vida: quando alguém encontra uma prática que produz sentido sobre a própria vida, isso mobiliza o ser humano em sua complexidade inteira como indivíduo e como parte de um coletivo.
Esse fundamento, segundo o pesquisador, que se fragiliza numa vida sedentária. “O corpo fica fragilizado. O movimento é uma característica essencial do mundo e de nós, seres humanos. Precisamos então ter práticas corporais que exploram mais intensamente o mover para podermos nos conhecer, conhecer os outros, compreender a vida e nosso papel na sociedade”, afirma.
Manoel Messias, 57 é mestre em capoeira do grupo Beribazu. Baiano, ele conta que veio para Brasília aos 11 anos e, inicialmente, morou na “invasão do Ceub” (ocupação próxima ao Centro Universitário de Brasília, na Asa Norte). Atrás dos muros da faculdade, ele assistia às aulas de capoeira do professor Gavião, sem poder entrar. “Um belo dia, ouvi o som do berimbau, e cheguei mais perto pra ver. Depois, o mestre Gavião batalhou para que as crianças da invasão tivessem acesso à prática na faculdade.”
Hoje, mais de 40 anos depois, mestre Bill, como é conhecido, vive da capoeira, com aulas e uma loja. Para ele, a arte marcial está presente em todos os momentos: “A capoeira pra mim acontece 24 horas por dia. Foi com ela que eu consegui tudo na minha vida, inclusive sustentar minha família. Hoje, tenho o privilégio de dizer que eu sobrevivo dela.”
Para alguns, movimentar-se nas suas mais diversas formas foi, desde o princípio, libertador. Para outros, foi preciso se reencontrar. Essa é a história de Marta Ziller, 26, estudante de educação física, ex-atleta de patinação artística. Começou a patinar aos 5 anos, e competiu nacionalmente e internacionalmente até os 19. Anos de viagens e reconhecimento, mas também de autocobrança.
Depois de parar de competir, virou treinadora. Foi então que teve o primeiro contato com atividade física sem a rigidez do alto rendimento: começou a dançar e se mover livremente. Hoje, pratica movimento e calistenia, e não se lembra de ter vivido sem a atividade. “Não sei quem seria Marta sem a corporeidade”, diz. Para ela, mover-se é, sobretudo, saber se localizar no tempo e no espaço: “É meu caminho profissional, mas também não faria outra coisa. Tem a ver com como eu quero viver, construir relações, me cuidar e cuidar do mundo.”
Para Luiz Renato Vieira, doutor em sociologia, mestre de capoeira e professor da UnB, o mundo contemporâneo tende a silenciar os corpos, não só pela inação e pelo sedentarismo, mas também pela repetição e imposição de padrões de eficiência e aparência que transformam o corpo em instrumento a ser controlado. “É preciso devolver voz ao corpo e permitir sua livre expressão“, pontua. O especialista explica que o corpo inscreve histórias, memórias e relações de poder, mas também guarda marcas de luta e resistência. Para Vieira, recuperar o corpo como centro da experiência é trazer uma dimensão essencialmente humana da vida em sociedade — o encontro presencial, a sensibilidade e a construção coletiva dos ritmos da vida.
*Estagiária sob a supervisão de Márcia Machado
Fonte Correio Braziliense
Foto: Davi Pereira/CB/D.A Press










