Cientistas do Instituto Kennedy Krieger e da Johns Hopkins Medicine, nos Estados Unidos, descobriram que a consolidação da memória durante o sono depende da ação coordenada entre três regiões cerebrais e que interrupções nessas atividades podem prejudicar o processo. Segundo artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, trata-se do primeiro estudo em humanos a relacionar diretamente as interações entre o córtex orbitofrontal, o tálamo e o hipocampo à lembrança.
Os resultados da pesquisa também demonstram como os picos epilépticos podem atrapalhar a atividades nessas regiões e prejudicara formação da memória. Para os autores, o trabalho pode orientar futuras abordagens para detectar, monitorar e tratar os efeitos cognitivos associados à epilepsia.
“Ainda não entendíamos por que pacientes com epilepsia têm problemas de memória”, disse Catherine Chu, coautora do estudo, vice-presidente de neurologia do Kennedy Krieger e diretora de neurologia infantil e epilepsia pediátrica da Universidade Johns Hopkins. “Isso ajuda a preencher essa lacuna.”
Para o estudo, os pesquisadores registraram a atividade em três regiões do cérebro de pacientes com epilepsia. Eles analisaram como padrões rítmicos de atividade elétrica, conhecidos como oscilações neurais, fusos do sono e ondulações hipocampais, se coordenavam nessas áreas enquanto os voluntários dormiam.
Descargas elétricas
Ao comparar os padrões observados com medidas de desempenho da memória, os cientistas determinaram que uma coordenação mais forte das atividades no córtex orbitofrontal, tálamo e hipocampo estava ligada a uma melhor memória. No entanto, quando ocorriam descargas epilépticas, a ação era interrompida e a consolidação da lembrança prejudicada.
Conforme Ana Paula Gonçalves, presidente da Liga Brasileira de Epilepsia, neurologista e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pacientes com epilepsia apresentam distúrbios da atividade elétrica cerebral. “Há um grupo de neurônios hiperecitáveis que trabalham mais e de forma desordenada, provocando um comportamento inadequado. A pessoa epiléptica apresenta descargas cerebrais, como se fossem faíscas, provocando um descanso fragmentado.”
Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Américas, destaca que embora o sono não apareça formalmente entre os fatores de risco potencialmente modificáveis para o desenvolvimento de demência, ele pode estar indiretamente relacionado a vários deles, como obesidade e hipertensão, além de participar do mecanismo de consolidação das lembranças. “Há bastante tempo, estudos com animais e seres humanos demonstram que a privação desse descanso prejudica a aprendizagem. O diferencial dessa nova pesquisa é apresentar uma evidência neurofisiológica, demonstrando uma associação entre a atividade elétrica específica de determinadas áreas do cérebro e o desempenho da memória.”
Fonte Correio Braziliense
Foto: Imagem de Jcomp










