Seca durante gravidez aumenta risco de parto prematuro, diz estudo

Secas com duração de seis ou nove meses também foram associadas a um aumento de 1% a 2% na probabilidade de o bebê nascer pequeno para a idade gestacional

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 As mudanças climáticas provocam desde ciclos de chuva mais intensos até secas severas em diferentes regiões do mundo e afetam, consequentemente, a saúde humana. Um novo estudo internacional, coordenado pelo Instituto de Pesquisas Sant Pau, na Espanha, em conjunto com o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos em Saúde (Cidacs, Brasil), analisou quase 30 milhões de nascimentos registrados no Brasil ao longo de duas décadas, revelando que a exposição à seca durante a gravidez está associada a um maior risco de parto prematuro e mais chances do bebê nascer pequeno para a idade gestacional. O estudo foi publicado na revista The Lancet Regional Health Americas.

“Nossos resultados mostram que a seca não é apenas um fenômeno ambiental ou agrícola, mas também um potencial determinante da saúde materno-infantil. É um exemplo claro de saúde planetária: como as mudanças no clima e nos sistemas naturais podem, em última análise, afetar a saúde humana”, disse Aline Rocha, líder do estudo e pesquisadora do Sant Pau.

O trabalho analisou nascimentos registrados no Brasil entre 2001 e 2020. O grupo avaliado é composto por pessoas cadastradas em programas sociais e, portanto, representa parte da população do país mais desfavorecida socioeconomicamente. Os pesquisadores avaliaram três desfechos adversos: nascimento antes de 37 semanas; baixo peso ao nascer entre bebês a termo; e nascidos pequenos para a idade gestacional.

A exposição à seca foi estimada utilizando o Índice Padronizado de Precipitação-Evapotranspiração (SPEI), que considera tanto a chuva quanto a perda de água relacionada à temperatura. A análise levou em conta o deficit hídrico cumulativo durante os três, seis e nove meses que antecederam o parto, possibilitando examinar tanto exposições relativamente breves quanto aquelas que duraram quase toda a gestação.

Essa exposição foi também consistentemente associada a um aumento relativo de aproximadamente 2% na probabilidade de parto prematuro nas três escalas de tempo analisadas, representando entre 1,4 e 1,7 casos adicionais a cada mil nascimentos. A relação foi ainda mais clara ao examinar a exposição cumulativa ao longo de seis meses: o risco aumentou progressivamente com a intensidade da seca, de aproximadamente 1% durante episódios moderados para 3% durante casos severos e 5% durante eventos extremos.

“A magnitude relativa pode parecer modesta, mas deve ser interpretada a partir de uma perspectiva populacional. As secas afetam simultaneamente vastas áreas e milhões de pessoas, portanto, mesmo um pequeno aumento pode se traduzir em um número considerável de partos prematuros”, observa Rocha.

Prematuridade

Secas com duração de seis ou nove meses também foram associadas a um aumento de 1% a 2% na probabilidade de o bebê nascer pequeno para a idade gestacional , principalmente quando a exposição ocorreu durante os estágios iniciais e intermediários da gravidez.

Segundo Daniel Godoy, ginecologista obstetra do Hospital Santa Lúcia Sul, em Brasília, a falta de água favorece a desidratação, enquanto o estresse causado pelo calor pode provocar alterações no organismo da gestante. “Além disso, secas prolongadas podem levar à falta de alimentos, piora da nutrição materna e dificuldade de acesso ao pré-natal. Esses fatores podem prejudicar a placenta e reduzir a oferta de oxigênio e nutrientes ao bebê, afetando seu crescimento.”

Os cientistas não encontraram associação consistente entre seca e baixo peso ao nascer em bebês a termo. Os resultados sugerem que os efeitos identificados se concentram principalmente no risco de parto prematuro e, após exposição prolongada, no crescimento fetal abaixo do esperado.

A ginecologista e obstetra, Karoline Prado, de Joinville, Santa Catarina, destaca que é indispensável fortalecer o acompanhamento pré-natal durante períodos de seca e ondas de calor, garantir acesso à água potável. “Além de oferecer apoio nutricional e desenvolver sistemas de alerta que integrem informações ambientais e de saúde. Também é fundamental criar estratégias específicas para populações com menos recursos, justamente porque os resultados mostram que a vulnerabilidade socioeconômica pode ampliar o impacto da seca sobre o risco de parto prematuro.”

Escassez de alimentos

Em municípios com um Índice de Desenvolvimento Humano muito baixo, a exposição cumulativa ao longo de seis e nove meses esteve associada a aumentos aproximados de 8% e 10% na probabilidade de parto prematuro. A falta de recursos limita a capacidade das pessoas de lidar com a escassez de alimentos ou o aumento dos preços, manter o acesso contínuo à água potável, garantir uma nutrição adequada e receber cuidados pré-natais. A seca pode, portanto, agravar as desigualdades preexistentes e ter um impacto maior sobre aqueles com menos meios para se protegerem de suas consequências.

“Os eventos climáticos não afetam a todos da mesma forma. As condições sociais determinam em grande parte a capacidade das pessoas de se protegerem da escassez de alimentos e água, de manterem uma nutrição adequada ou de terem acesso a cuidados pré-natais. As medidas de adaptação devem, portanto, dar especial atenção às mulheres grávidas em situações de maior vulnerabilidade”, enfatizou a líder do estudo.

 Palavra de especialista

Problema amplificado

“Estudos anteriores já mostraram que o calor extremo isoladamente já eleva o risco de parto pré-termo por mecanismos que incluem sobrecarga termorregulatória materna, desidratação, disfunção endócrina e comprometimento da função placentária e até mesmo alterações epigenéticas. Quando associado à seca, esse efeito tende a ser amplificado porque a escassez hídrica reduz a capacidade de o organismo controlar a temperatura interna criando um efeito sinérgico de estresse fisiológico sobre a unidade materno-placentária-fetal.”

Leonardo Coelho, obstetra especialista em gestação de alto risco, coordenador da emergência da Maternidade Brasília e obstetra no Hospital Brasília, da Rede Américas

Fonte Correio Braziliense
Foto: Imagem de tirachardz no Magnific