Como o vai e vem climático de Brasília e o ar-condicionado desafiam a saúde

Agosto atípico em Brasília, com períodos de chuva intercalados ao calor e à baixa umidade, pode intensificar sintomas respiratórios; especialistas alertam para cuidados com hidratação, climatização e doenças crônicas

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Brasília está vivendo um mês de agosto diferente do habitual. Após enfrentar um calor intenso e recordes de baixa umidade, com os termômetros atingindo entre 31°C e 32°C chegando a 34,3°C no Gama e a umidade despencando para críticos 13%, no meio do mês os brasilienses agora veem o tempo seco ser intercalado por episódios repentinos de chuva. Embora a mudança no tempo traga uma sensação momentânea de alívio, essa rápida mudança climática exige atenção redobrada com a saúde das vias respiratórias.

No centro desse cenário, quando o calor aperta, um “personagem” quase indispensável entra em ação por horas a fio: o ar-condicionado. Seja em casa, no trabalho, no carro ou no comércio, o aparelho vira o principal refúgio contra o clima extremo. No entanto, especialistas alertam que a combinação dessas mudanças bruscas de temperatura com o uso intenso do ar refrigerado pode ser o gatilho perfeito para uma série de problemas, como nariz entupido, coriza, espirros frequentes, garganta irritada e crises severas de rinite.

Segundo o otorrinolaringologista Stênio Ponte, do Grupo OtorrinoDF, as mudanças bruscas nas condições ambientais afetam diretamente os mecanismos naturais de proteção das vias respiratórias.

“O nariz é responsável por filtrar, aquecer e umidificar o ar antes que ele chegue aos pulmões. Quando o ambiente está muito seco ou quando passamos rapidamente do calor para locais frios e climatizados, essa capacidade de defesa pode ficar prejudicada. A mucosa resseca, torna-se mais sensível e surgem sintomas como ardência, coceira, espirros, coriza, obstrução nasal e irritação na garganta”, explica.

O especialista ressalta que a mudança de temperatura, por si só, não causa gripes ou resfriados, que são provocados por vírus. No entanto, o ressecamento e a irritação das mucosas podem comprometer a barreira de proteção do organismo. Além disso, em dias de chuva ou de calor intenso, as pessoas tendem a permanecer por mais tempo em ambientes fechados, o que facilita a circulação de vírus respiratórios.

“É comum que o paciente associe diretamente a mudança do tempo ao aparecimento de uma infecção. Na verdade, o que ocorre é uma combinação de fatores: mucosas mais fragilizadas, maior exposição a poeira, ácaros e fungos e permanência em locais fechados. Quem já tem rinite, sinusite, asma ou outras doenças respiratórias costuma sentir essas alterações com maior intensidade”, afirma Stênio Ponte.

A baixa umidade, por si só, já representa um desafio para o organismo. Segundo Larissa Camargo, otorrinolaringologista clínica do Hospital Santa Lúcia Sul, índices de 13% caracterizam um estado de alerta e exigem cuidados, especialmente nos períodos mais quentes do dia. A recomendação é evitar exposição e exercícios físicos entre 10h e 16h, além de reforçar a hidratação e a lubrificação das mucosas.

Beber muita água para lubrificar a cavidade oral, lavagem nasal e lubrificantes oculares estão entre as medidas indicadas pela especialista. O problema se intensifica quando o ar seco é associado ao ar-condicionado, que também contribui para reduzir a umidade do ambiente.

Ar-condicionado

O aparelho está presente em casas, escritórios, carros e estabelecimentos comerciais e costuma ser utilizado por mais horas justamente durante os dias de calor. Embora não seja, sozinho responsável por causar infecções, a climatização pode favorecer o aparecimento ou a piora de sintomas respiratórios.

De acordo com Larissa, o uso prolongado do equipamento reduz a umidade do ambiente e pode provocar ou intensificar sintomas como congestão nasal, coriza, espirros, coceira, ardência, tosse seca e rouquidão. A mudança brusca de temperatura também pode alterar a sensibilidade das mucosas. “Ele é mais um fator para diminuir a umidade”, explica.

Para pessoas com rinite, o efeito pode ser ainda mais incômodo. Além da queda de temperatura, o ar mais seco pode concentrar poeira e outros alérgenos em ambientes fechados. Os filtros dos aparelhos também exigem atenção: quando não são higienizados adequadamente, podem acumular fungos, ácaros, poeira e outras partículas.

Outro fator apontado pela otorrinolaringologista é a direção do jato de ar. A exposição direta ao fluxo do aparelho aumenta o ressecamento das mucosas e, consequentemente, a necessidade de hidratação.

Ressecamento também afeta os pulmões

O impacto não fica restrito ao nariz e à garganta. Segundo o pneumologista William Schwartz, permanecer muitas horas respirando ar seco pode ressecar tanto as vias aéreas superiores quanto as inferiores.

A mucosa das vias respiratórias integra o sistema de defesa do organismo. Quando fica ressecada, o muco também pode sofrer alterações, dificultando a remoção de partículas e microrganismos. Como consequência, podem surgir sintomas como ressecamento do nariz e da garganta, ardência nos olhos, tosse, pigarro e desconforto respiratório.

Pessoas que já apresentam doenças respiratórias podem ser ainda mais afetadas. Pacientes com asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), bronquite crônica, rinite ou rinossinusite crônica possuem vias aéreas mais sensíveis e podem apresentar piora dos sintomas diante da combinação de frio e tempo seco.

“O paciente pode sofrer irritação dessas vias aéreas, aumenta a hiper-responsividade brônquica e também pode desencadear tosse, chiado, falta de ar e eventualmente exacerbação mais grave”, explica William.

Por isso, para quem possui uma doença respiratória crônica, a recomendação é manter o acompanhamento médico e o controle adequado da condição de base.

Mas não basta controlar a temperatura do ambiente. A manutenção do sistema de climatização também é importante para a saúde respiratória. Segundo o especialista, um sistema de ar-condicionado mal cuidado pode acumular poeira, partículas, alérgenos e materiais biológicos. Esses contaminantes podem ser espalhados pelo ambiente e atingir tanto as vias aéreas superiores quanto as inferiores.

O especialista destaca ainda que existem normas específicas no Brasil relacionadas à manutenção e ao controle dos sistemas de climatização. Por isso, a limpeza e a manutenção dos equipamentos devem fazer parte da rotina, especialmente em ambientes de uso coletivo.

Umidificador ajuda, mas exige cuidado

Diante da baixa umidade, uma dúvida comum é se utilizar um umidificador junto ao ar-condicionado seria suficiente para resolver o problema.

A resposta do pneumologista é que o aparelho pode ajudar, mas não deve ser usado indiscriminadamente. O ideal, segundo ele, é monitorar a umidade do ambiente e, quando estiver muito baixa, elevá-la moderadamente até uma faixa entre 40% e 60%.

A higienização do equipamento, porém, é fundamental. Reservatórios com água parada ou contaminada podem acumular mofo, germes e outros contaminantes, que acabam sendo lançados no ar e podem prejudicar justamente pessoas que já apresentam maior sensibilidade respiratória.

As pancadas de chuva neste período também podem provocar mudanças na sensação respiratória. De acordo com William, as chuvas aumentam temporariamente a umidade e ajudam a reduzir a quantidade de poeira suspensa no ar, o que pode trazer alívio para muitas pessoas.

Por outro lado, as mudanças abruptas de temperatura e umidade podem incomodar indivíduos mais sensíveis. Algumas pessoas podem apresentar hiper-reatividade diante dessas oscilações, embora, segundo a especialista, isso represente uma parcela menor dos pacientes.

Para a otorrinolaringologista, a questão também está relacionada ao funcionamento das defesas naturais do nariz. A cavidade nasal é uma das principais barreiras contra germes, poeira e outras impurezas presentes no ambiente. As oscilações entre calor, frio, chuva e ressecamento podem prejudicar a eficiência dessa proteção.

É por isso que, segundo ela, muitas pessoas percebem maior ocorrência de sintomas respiratórios durante períodos de mudanças climáticas mais acentuadas.

Como se proteger

Para quem não pode evitar o ar-condicionado durante o dia, os especialistas recomendam algumas medidas simples. A primeira é evitar que o fluxo de ar fique direcionado diretamente para o rosto ou para o corpo.

A hidratação também deve ser reforçada, mesmo quando não há sensação de sede. Uma das formas de acompanhar o estado de hidratação é observar a coloração da urina: quanto mais clara, em geral, melhor o nível de hidratação.

A lavagem nasal preventiva também pode ser uma aliada, especialmente entre crianças, idosos e gestantes, grupos que podem apresentar sintomas mais intensos.

No ambiente de trabalho, o pneumologista recomenda prestar atenção não apenas à temperatura, mas à qualidade do ar. O espaço não deve ficar excessivamente frio ou seco e precisa contar com renovação adequada do ar e manutenção periódica do sistema de climatização.

“É importante também ventilar os ambientes, reduzir o acúmulo de poeira e observar a duração dos sintomas. Sangramentos nasais frequentes, falta de ar, febre persistente, dor intensa, secreção com odor forte ou sintomas que não melhoram precisam ser avaliados por um médico”, finaliza Stênio.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Ed Alves CB/DA Press