Sindicalista com longa trajetória no setor de combustíveis, Paulo Tavares foi
eleito para o seu segundo mandato à frente do sindicato que representa os
revendedores do Distrito Federal, presidência da qual se encontra licenciado,
na forma da lei, para concorrer ao cargo de Deputado Federal.
Nesta entrevista, ele fala sobre sua história, a transformação do mercado de
combustíveis, os desafios enfrentados pelos pequenos postos e a necessidade
de mais transparência na formação dos preços. Em uma conversa franca,
revela também o homem por trás do dirigente, professor, empresário,
brasiliense, pai de família, e o novo capítulo que decidiu abrir na vida pública.

Uma vida entre a educação, a tecnologia e a política
Revista Plano B — Quem é Paulo Tavares?
Paulo Tavares — Sou, antes de tudo, um trabalhador. Minha primeira vocação
foi a carreira acadêmica: formei-me em Matemática e em Ciência da
Computação, iniciei um mestrado em Estatística e fui professor concursado da
rede pública de ensino, estou aposentado há três anos. Foi nesse caminho que
comecei a me aproximar da política e da gestão pública. Trabalhei com o
governador Cristovam Buarque e com o deputado Chico Floresta e, quando
Cristovam assumiu o Ministério da Educação, fui convidado a atuar no INEP,
na área de estatística. Depois passei pelo FNDE, na área de tecnologia, e pelo
Ministério Público do Distrito Federal, cuidando de contratos de tecnologia. Foi
uma trajetória que me deu experiências muito distintas entre si, educação,
tecnologia, gestão pública, política, e que, mais tarde, viria a somar-se ao setor
de combustíveis.

Do professor ao empresário
Revista Plano B — Em que momento o combustível entrou
definitivamente na sua vida?
Paulo Tavares — Por volta de 2012, quando adquiri um pequeno posto na 214
Norte, em Brasília, e passei a trabalhar diretamente na operação. Era um
trabalho muito prático: eu era gerente, operador de caixa, cuidava de tudo. O
posto vendia cerca de 100 mil litros por mês e, em dois anos, praticamente
dobramos esse volume. Foi ali que passei a conhecer, por dentro, a realidade
do setor e os seus desafios.
A crise que transformou o mercado
Revista Plano B — A Operação Dubai marcou uma mudança no mercado
de combustíveis de Brasília. O que aconteceu naquele período?
Paulo Tavares — O mercado mudou completamente. Houve uma crise
intensa, uma guerra de preços, e um dos efeitos foi a saída de muitos
pequenos revendedores e a concentração de postos nas mãos de grupos
maiores, empresários que tinham poucos estabelecimentos passaram a
adquirir os postos de quem não conseguiu atravessar aquele período. Eu
também cresci naquela fase, mas cresci com a mão na massa: estava dentro
do posto, na operação, tentando sobreviver à guerra de preços como todo
pequeno revendedor.
O desafio dos pequenos postos
Revista Plano B — Hoje ainda é possível sobreviver apenas vendendo
combustível?
Paulo Tavares — Está cada vez mais difícil, sobretudo para o pequeno
revendedor. A margem é apertada, e os custos, folha de pagamento, aluguel,
taxas de cartão, manutenção, operação, pesam muito. Por isso, hoje, a maioria
dos postos precisa de outras frentes de receita: loja de conveniência, lava-
rápido, borracharia. Em muitos casos, a pista, sozinha, não sustenta o negócio.
Os grandes players, que vendem volumes muito maiores, vivem uma realidade
completamente diferente.

“O problema não é o posto. É o imposto.”
Revista Plano B — O consumidor costuma responsabilizar o posto pelo
preço alto da gasolina. Essa percepção está equivocada?
Paulo Tavares — Essa foi, justamente, uma das pautas que sempre defendi:
mostrar que o problema não é simplesmente o posto, é preciso olhar para a
composição do preço. O consumidor vê o valor na bomba e imagina que toda a
diferença em relação ao preço da Petrobras fica com o revendedor. Não fica.
Existe uma cadeia inteira: o produto sai da refinaria, passa pela Transpetro,
chega à distribuição, já com os impostos e o frete, recebe a mistura do etanol
e, só então, alcança a revenda. O revendedor não determina o preço na
bomba, e o que sempre procurei fazer, ao longo da minha trajetória no setor, foi
explicar como esse preço se forma. O que falta, principalmente nos elos
intermediários da cadeia, é transparência.
Menos imposto e mais transparência
Revista Plano B — Existe espaço para reduzir o preço dos combustíveis
no Distrito Federal?
Paulo Tavares — Acredito que sim. Uma das principais questões é a carga
tributária, pauta que defendo há muitos anos. Precisamos discutir por que o
combustível é tão tributado e se há espaço para reduzir essa carga sem
comprometer a arrecadação, além de debater como o preço se constrói antes
de chegar à bomba. O consumidor precisa saber quanto custa o produto,
quanto é imposto, quanto é distribuição e qual é a margem de cada elo da
cadeia. Transparência é fundamental.
Petrobras, distribuidoras e a formação do preço
Revista Plano B — Qual é, na sua avaliação, o principal problema hoje na
cadeia de combustíveis?
Paulo Tavares — É a falta de transparência na distribuição. O consumidor
muitas vezes imagina que o posto compra diretamente da Petrobras, mas não
é assim que a revenda funciona: a gasolina percorre diferentes etapas até
chegar ao consumidor e, quando há alteração de preço na distribuidora, é o
revendedor quem precisa entender, e explicar, essa mudança na ponta.
Defendo que as distribuidoras tenham mais transparência na formação de seus
preços. Não sou favorável a tabelamento: defendo regulação, fiscalização e
transparência, para que a população consiga compreender exatamente por que
o preço subiu ou caiu.
Uma posição firme sobre a Petrobras
Revista Plano B — O senhor também defende uma presença forte da
Petrobras no mercado. Por quê?
Paulo Tavares — Sou defensor da Petrobras e radicalmente contrário à
privatização da empresa. Ela é estratégica para o Brasil, petróleo não é apenas
uma commodity; é também um instrumento de poder econômico. Sou
igualmente contrário à privatização das refinarias e defendo uma presença
maior do Estado na distribuição, não para tabelar preços, mas para ajudar a
regular o mercado e garantir a segurança do abastecimento. O Brasil produz
muito petróleo, mas ainda enfrenta desafios importantes no refino e na
distribuição. Por isso, considero estratégico manter instrumentos que
assegurem ao país capacidade de negociação e segurança energética.

O homem por trás do dirigente
Revista Plano B — Quem é Paulo Tavares fora da atuação sindical e dos
negócios?
Paulo Tavares — Sou brasiliense. Nasci em 1964 e fui criado entre a região
central de Brasília e Taguatinga. Minha família tem uma história muito ligada à
construção da cidade: meu pai veio do Rio Grande do Norte ainda nos
primeiros anos da capital e construiu a vida aqui, trabalhando no comércio.
Minha mãe também tem uma trajetória de muita superação, voltou a estudar
depois de ter filhos, formou-se e tornou-se professora. Tenho uma família
grande e muito unida: sou pai de cinco filhos e casado há 27 anos, e procuro
preservar bastante essa convivência. Sempre gostei de esporte, pratiquei
corrida, joguei basquete na juventude e hoje mantenho a academia e o boliche.
Continuo acreditando que cuidar da saúde e manter uma rotina ativa faz parte
de estar preparado para qualquer desafio.
Uma nova agenda para o setor — e para Brasília
Revista Plano B — Depois de tantos anos à frente do sindicato dos
revendedores — presidência da qual está licenciado para disputar as
eleições —, qual é a principal missão que o senhor ainda pretende
cumprir?
Paulo Tavares — A missão que abracei ao longo de toda essa trajetória foi
levar informação à sociedade, e é isso que pretendo continuar fazendo, agora
em outro espaço. Quero que as pessoas entendam que o preço dos
combustíveis não é uma questão simples, é preciso discutir impostos,
distribuição, refino, margem, concorrência e transparência. O posto é a ponta
da cadeia, é quem está diante do consumidor todos os dias e, por isso, muitas
vezes acaba respondendo por decisões tomadas bem antes de o combustível
chegar à bomba. Também quero continuar defendendo, agora no Parlamento,
os pequenos revendedores e as condições para que o setor continue
competitivo, não podemos ter um mercado cada vez mais concentrado; isso
não é bom nem para o consumidor, nem para o próprio setor.
Revista Plano B — Essa trajetória, do quadro-negro à liderança sindical
de um setor estratégico, da qual o senhor está licenciado, ganha agora
um novo capítulo: o senhor é candidato a Deputado Federal pelo Distrito
Federal. Por que, e por que agora?
Paulo Tavares — Depois de vinte anos discutindo, no varejo e nos bastidores,
os efeitos que as decisões tomadas em Brasília produzem na vida de quem
trabalha, o pequeno empresário, o revendedor, o motorista que depende do
carro para viver, entendi que era hora de levar essa pauta para dentro do
Congresso Nacional, e não apenas para a mesa de negociação. Fui professor,
servidor público, empresário e dirigente sindical; em todos esses capítulos, a
pergunta foi sempre a mesma: por que o custo de fazer as coisas no Brasil
pesa tanto sobre quem trabalha? É essa pergunta que quero levar comigo
como Deputado Federal.
Entre a sala de aula e a bomba de combustível
A trajetória de Paulo Tavares é marcada por capítulos distintos: professor,
profissional de tecnologia, gestor público, empresário e dirigente sindical. Hoje,
sua principal bandeira está diretamente ligada a um produto que influencia a
vida de praticamente todos os brasileiros.
Mais do que a defesa dos interesses de uma categoria, que marcou sua
atuação sindical, ele afirma querer mudar a forma como a sociedade enxerga o
setor. Sua tese é direta: para compreender o preço pago na bomba, é preciso
olhar para toda a cadeia, e não apenas para quem está atrás do balcão.
Com discurso firme e disposição para o debate, Paulo Tavares transformou a
comunicação em uma de suas principais ferramentas de atuação. Sua defesa é
por menor carga tributária, maior transparência e um mercado em que o
consumidor consiga compreender, centavo a centavo, quanto paga pelo
combustível que coloca no tanque.

Por: Revista Plano B
Fotografia: Thaís Tavares Lima











