“Calor pode afetar o coração”, alerta especialista em cardiologia

Ao CB.Saúde, especialista alerta para riscos causados pelas altas temperaturas e reforça que a hidratação é fundamental

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Os cuidados com a saúde do coração em períodos de temperaturas elevadas foram tema do CB.Saúde, parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília. “Temperatura alta aumenta o risco de desidratação, que aumenta o trabalho do coração”, alertou Renault Ribeiro Jr., especialista em cardiologia do Hospital Santa Lúcia (HSL) e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia — Seção DF. Às jornalistas Sibele Negromonte e Carmen Souza, ele também falou sobre os riscos cardiovasculares de praticar atividade física durante o calor intenso.

Nesse Brasil à 40 ºC, os corações estão ameaçados?

Temperatura alta aumenta o risco de desidratação, que aumenta o trabalho do coração. Com isso, pode aumentar o risco cardiovascular, especialmente nas pessoas que já têm problema detectado ou que já têm muito fator de risco. É bom ficar alerta, ingerir a quantidade de líquidos suficiente para não correr o risco de desidratar e aumentar o perigo de um problema sério como o infarto. 

A hidratação funciona como um bem para todo o funcionamento do organismo e melhora o corpo como um todo, o coração é beneficiado. 

Com certeza, melhora principalmente a função renal, que é um órgão que trabalha diretamente com o coração; então, esse desequilíbrio cardiorrenal não vai acontecer, e nenhum dos dois ficará mais exigido. Isso dá o que chamamos de homeostase, um equilíbrio maior, sem sobrecarregar ninguém. Muitas pessoas tomam medicamentos que atuam diretamente nos rins. Pacientes hipertensos, que têm insuficiência cardíaca, andam num limite de estado de hidratação controlado. Se você não se hidrata ou se expõe ao calor excessivo, você corre o risco de desidratar e aumentar o risco cardiovascular.

Que cuidados tomar em relação à prática de exercícios físicos mais intensos em Brasília nesse período de alta temperatura?

O risco é muitas vezes uma busca de alta performance e a utilização de recursos não muito bem indicados, termogênicos em excesso e estimulantes. Dentro de um período de maior calor, onde a pessoa está mais desidratada, isso se torna mais prejudicial, colocando-a em risco por aumentar a pressão arterial e a frequência cardíaca. Às vezes, as pessoas vão treinar em um horário não muito adequado, e objetivos que precisam ser alcançados são colocados na frente do bem-estar que o exercício físico deve promover. 

As canetas emagrecedoras são um recurso que o cardiologista tem usado para melhorar a saúde do coração? 

Esses medicamentos foram indicados para reduzir diabetes e, consequentemente, sobrepeso e obesidade, mas, posteriormente, mostraram redução de infarto, de AVC e até da própria doença aterosclerótica. Dependendo do estilo de vida, você pode ter bons resultados em relação à pressão arterial. Redução de colesterol é um pouco mais difícil, mas principalmente de pressão arterial e até de sobrepeso e obesidade. Esses medicamentos, no início, funcionam como um bom gatilho para você começar a reduzir o peso, além dos benefícios de proteção cardiovascular, por ajudar a desinflamar o corpo. Os eventos de infarto e AVC estão muito atrelados, relacionados com processos inflamatórios.

Não seria uma estratégia a ser adotada no Sistema Único de Saúde, considerando todos os benefícios que o senhor listou?

Gosto de comentar com os pacientes: ‘vamos pensar na caneta como uma tecnologia’. Medicamento é tecnologia e, por ser nova, vai ser mais cara. Eu acredito que, no futuro, será mais acessível. É uma estratégia extremamente interessante. Está provado que você consegue reduzir doenças cardiovasculares. Mas não podemos abandonar aquilo que a gente construiu e conheceu. Falo em remédios melhores para colesterol e para reduzir a pressão. O que temos de arsenal, em nível nacional, do SUS, ainda é muito indesejado diante do que a gente conhece e tem. Faço parte do conselho da Sociedade Brasileira de Cardiologia e temos lutado para incluir medicamentos que têm uma tecnologia maior. O paciente consegue tomá-lo uma vez por dia. Tomando uma vez por dia, a adesão melhora. Melhorando a adesão, você consegue um melhor resultado e desfecho cardiovascular. Então, precisamos incluir essas tecnologias. Mas, junto disso, precisamos também estimular outros medicamentos que precisam ser incluídos na rede pública.

Que outros fatores de risco podem resultar em um problema cardiovascular sério?

Hipertensão arterial — que é a pressão alta, colesterol elevado e o próprio tabagismo. Ao longo do tempo, temos identificado isso e começando a tratar, e a incidência de doenças cardiovasculares começou a cair. Mas, aí, relaxamos um pouquinho sobre essa questão de peso e veio a diabetes. Hoje, a gente incentiva muito as pessoas a medir sua glicemia, seu açúcar no sangue, tratar a diabetes.

O que a cardiologia sabe da relação entre os cigarros eletrônicos e a saúde do coração?

Infelizmente, a gente vê um número crescente dos cigarros eletrônicos como uma suposta tecnologia que pudesse substituir (o cigarro tradicional) e não causasse prejuízo à saúde das pessoas. Isso é uma grande mentira. Esses cigarros eletrônicos têm componentes de nicotina, que são extremamente prejudiciais, cancerígenos e aumentam expressivamente o risco cardiovascular. A gente deve combater o cigarro eletrônico, porque aumenta o risco cardiovascular igualmente ou até mais do que propriamente o cigarro tradicional.

*Estagiária sob a supervisão de Malcia Afonso

Fonte Correio Braziliense
Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press