O sorriso ilumina o ambiente antes mesmo da primeira música tocar. Atrás das pick-ups, Dudu Atiê ajusta os equipamentos, observa o público e espera o momento certo de dar início à apresentação. Quando o som começa e as pessoas ocupam a pista, ele faz o que mais gosta: mistura músicas, dança, interage e transforma a própria felicidade em energia compartilhada. Aos 22 anos, o jovem brasiliense encontrou na profissão de DJ não apenas uma carreira, mas um caminho para mostrar que talento e dedicação vão muito além de qualquer rótulo.
A relação com a música começou na infância. Entre reuniões de família e brincadeiras na casa da avó, em Barretos (SP), Luiz Eduardo Atiê demonstrava uma conexão especial com canções, ritmos e coreografias. Enquanto outras crianças escolhiam brinquedos favoritos, ele passava horas ouvindo músicas e assistindo a videoclipes. “Eu sempre gostei muito de música. Dançava com minhas primas na casa da minha avó e assistia a muitos vídeos musicais. Aos poucos fui me interessando pelo trabalho dos DJs e comecei a sonhar em fazer isso também”, conta.
O desejo deixou de ser apenas um sonho em fevereiro de 2024, quando ele iniciou as aulas com o DJ Ronaldo Holanda. O interesse rapidamente se transformou em paixão e dedicação. Segundo a mãe, Ana Lúcia Atiê, a iniciativa partiu inteiramente do filho. “O pedido para ser DJ foi realmente dele. Quando terminou o ensino médio, eu não sabia nem onde encontrar alguém que ensinasse essa profissão. Acabei conhecendo um professor maravilhoso, que acolheu o Dudu como qualquer outro aluno. Ele começou o curso e evoluiu muito rápido”, relembra.
Dudu é uma pessoa com síndrome de Down, uma alteração genética causada por uma divisão celular atípica. Por meio da música, o jovem artista mostra como se faz um som bom, independentemente de qualquer coisa.
A evolução de Atiê chamou atenção logo nos primeiros meses. Ana conta que o professor percebeu rapidamente o potencial do aluno e incentivou a família a investir em equipamentos próprios. “Em pouco tempo, o professor me pediu para comprar o equipamento dele. Quando vi o Dudu tocando pela primeira vez, o que mais me chamou atenção foi a responsabilidade e o profissionalismo. A partir dali, passei a apoiar mais esse sonho”, afirma a mãe.
A estreia diante do público aconteceu em uma despedida de amigos. O evento marcou o início de uma sequência de convites que não parou mais. Depois daquela primeira experiência, vieram apresentações em festas, seminários e eventos institucionais. Hoje, Dudu acumula passagens por espaços nobres, além de eventos particulares, como Senado Federal, Câmara dos Deputados, Câmara Legislativa do Distrito Federal, Olimpíadas das Apaes e ações voltadas à inclusão social.
Apesar das conquistas, Dudu afirma que enfrenta desafios que vão além da técnica musical. “O principal desafio é que as pessoas me enxerguem além da síndrome de Down. Quero que vejam meu potencial e entendam que sou capaz, que sou um DJ profissional”, destaca.
Mais do que tocar músicas, ele busca transmitir uma mensagem para outros jovens. “Quero que as pessoas olhem para os talentos de cada um. Se a minha trajetória puder inspirar alguém a acreditar em si mesmo, isso vale muito a pena”, diz.
No palco, a timidez dá lugar à confiança. Dudu acompanha atentamente a reação do público e comemora cada pista cheia. “Eu sinto uma energia incrível. Sou feliz no palco. Quando vejo as pessoas dançando e se divertindo, me sinto realizado e motivado a tocar em mais eventos”, conta.
Parte desse entusiasmo vem da admiração que ele tem por grandes nomes da música eletrônica. Entre as referências estão Calvin Harris, David Guetta, Dennis DJ, Dubdogz e, principalmente, Alok. “Acompanho vários DJs para me inspirar. O Alok tem uma trajetória muito legal. Além da música, ele faz apresentações com efeitos visuais, dançarinos e muita interação com o público. Eu admiro muito isso”, afirma. O sonho de conhecê-lo permanece vivo. Se tivesse a oportunidade de encontrá-lo, Dudu diz que gostaria de falar justamente sobre essa inspiração e sobre a vontade de dividir uma música com ele em algum palco.
Enquanto esse encontro não acontece, outros objetivos seguem no horizonte. Um deles é se apresentar no Na Praia Festival, um dos maiores eventos de entretenimento de Brasília. Também deseja levar sua música para outras cidades e estados brasileiros.
Paralelamente à carreira artística, ele passou a atuar como influenciador digital, compartilhando a rotina, os bastidores das apresentações e reflexões sobre inclusão. Para ele, ocupar esses espaços também é uma forma de combater o capacitismo e ampliar a visibilidade de pessoas com deficiência.
Ana acompanha cada conquista de perto e não esconde o orgulho ao falar do filho. Para ela, o sucesso de Dudu está diretamente ligado à autenticidade com que ele vive a música. “Ele ama música o dia inteiro. É algo muito natural nele. Tem uma facilidade enorme para conhecer músicas, artistas e estilos. Além disso, é muito carismático. A desenvoltura no palco e o fato de também gostar de dançar acabam sendo diferenciais”, observa.
A mãe garante que incentivará o filho a perseguir seus objetivos. “Vou continuar apoiando porque sei que ele está feliz. Tenho certeza de que a música é a paixão dele e ser DJ é sua maior realização.” Entre luzes, batidas eletrônicas e pistas de dança, Dudu segue construindo a própria trajetória. Uma música de cada vez, ele amplia horizontes, desafia preconceitos e mostra que talento não tem limites. Afinal, quando assume o comando da mesa de som, o que o público enxerga não é a síndrome de Down. É apenas um DJ fazendo aquilo que nasceu para fazer.
*Estagiária sob a supervisão de José Carlos Vieira
Fonte Correio Braziliense
Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press











