Os bichos estão soltos no DF

Esculturas de animais selvagens esculpidas em concreto estão espalhadas por várias regiões da capital e atraem a atenção do brasiliense

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Encontrar animais selvagens tem sido cada vez mais frequente pelas ruas e avenidas do Distrito Federal. Quem circula pela cidade, especialmente a pé ou de bicicleta, pode até tomar um susto ao deparar-se com onças, jacarés, garças ou até mesmo lobos-guará soltos por aí. Mas calma!

Os bichos não fugiram do zoológico e nem mesmo são reais. Construídos em concreto, foram concebidos pelo artista plástico Gil Marcelino, de 78 anos. Nascido na Espanha, “mas com alma brasileira”, como ele mesmo se considera, Marcelino explica que decidiu criar suas obras em agradecimento ao Brasil por recebê-lo tão bem e para oferecer uma experiência mais harmoniosa com a arte. “Foi uma forma de agradecer ao país que me acolheu de braços abertos”. Todas as espécies representadas são genuinamente brasileiras, garante.

Para o artista, a interação das pessoas, sobretudo das crianças, com as suas criações é uma fonte inesgotável de alegria. De acordo com ele, a fauna de concreto foi concebida para ser tocada e não só admirada. “Como no zoológico não é possível abraçar e fazer carinho nos animais, as crianças, e até adultos, transferem todo esse amor reprimido pelos bichos tocando, abraçando e até beijando minhas obras. E isso é um regozijo para mim, nada paga essa sensação”, conta, emocionado.

Levar a arte para mais perto do povo, segundo o artista, é não só para estimular essa interação, mas uma maneira para democratizá-la. Com esse objetivo, ele transformou a Quadra 28 do Park Way (que completou 62 anos no último dia 13), onde reside, em uma galeria a céu aberto. No local, foram espalhados cerca de 50 animais o que conquistou a admiração dos vizinhos e visitantes.

Em reconhecimento ao trabalho do artista plástico, a “Quadra da Arte”, como já havia sido batizada, se tornou Patrimônio Cultural do Distrito Federal, em 2012, pela Lei 4.759.

“Eu já tinha ouvido falar sobre esses animais “fakes”, mas não imaginava que eram tão perfeitos. Eles têm o tamanho natural e as cores são exatamente as mesmas dos originais. São lindos, mas podem até assustar se alguém deparar com algum deles à noite”, diverte-se o advogado Matheus de Oliveira, que passava na frente do condomínio de Gil e aproveitou para tirar algumas fotos.

No gramado há um banco com uma imagem de São Francisco de Assis, padroeiro dos animais e da natureza, fazendo carinho em um filhote de onça, duas capivaras e uma coruja. Logo ao entrar no condomínio, o visitante já visualiza garças, flamingos e, na frente do portão da casa do artista há uma onça enorme que Gil Marcelino considera como sua “recepcionista”.

Para evitar a ação de vândalos, a bicharada é construída com vergalhões e cimento e bem fixadas no chão. De acordo com o artista, ele constrói as peças de modo que, se forem forçadas, as patas dos animais quebram. “Essa é a minha estratégia para evitar que os ‘amigos do alheio’ (como define os ladrões de suas obras) furtem as minhas obras”, revela.

Dom Quixote

Gil Marcelino nasceu na Província de Vigo, na Galícia, Espanha, e chegou ao Rio de Janeiro, em 1957, aos 11 anos, depois de uma longa viagem de navio que durou 23 dias, “entre o céu e o mar”. “Nunca esquecerei a imagem do Cristo Redentor de braços abertos que vi ao me aproximar do Rio de Janeiro.

Em Brasília desde 1979, ele exerceu as mais diversas profissões como alfaiate, gráfico, pistonista até se tornar fiscal da Receita Federal. Após se aposentar do serviço público, reservou mais tempo para a arte e criou, na própria casa, uma exposição permanente de outras coleções que desenvolveu.

São cerca de duzentas esculturas em madeira e fibra que contam a história de Dom Quixote de La Mancha, cavaleiro andante criado pelo seu compatriota, o escritor Miguel de Cervantes. O herói errante que combatia moinhos imaginando-os como dragões em busca de sua amada Dulcinéia, é a personagem que simboliza a raiz genética do artista espanhol e por que representa a mesma motivação do escultor: lutar para tornar o mundo um lugar melhor, com dignidade e persistência, apesar dos devaneios da humanidade.

Segundo Marcelino, foram 21 anos para completar apenas essa coleção e demandou o trabalho de mais oito artistas. Este setor da exposição fica atrás de uma porta com os dizeres: “Não permitas que os que não sonham te detenham”.

Chicoteca

Ele também criou a “Chicoteca”, uma coleção inspirada em São Francisco de Assis. São centenas de esculturas e pinturas que contam as histórias do santo protetor dos animais e da natureza. “Uma coleção de chiquinhos”, orgulha-se. Em diversos tamanhos, a coleção ocupa boa parte do espaço da pequena galeria “caseira”. Assim como as obras de Dom Quixote, elas não devem ser tocadas.

No mesmo ambiente reservado para a arte sacra, ele expõe 28 miniesculturas da Paixão de Cristo, esculpidas em madeira, desde a anunciação até a ascensão de Jesus.

Nem todo o acervo está à venda, e a maioria das peças são confeccionadas por ele e mais um grupo de artistas que o auxiliam no ateliê, que fica nos fundos do terreno.

Para visitar a galeria e conhecer as obras de Gil Marcelino basta agendar um horário pelas redes sociais (@ateliegilmarcelino) ou pelo telefone: (61) 99986-0028.

Por Afonso Ventania do Jornal de Brasília

Foto: Afonso Ventania do Jornal de Brasília

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