Gesto máximo de amor, transplante inter vivos reduz espera por órgão

Maior demanda nacional da lista de espera de transplantes é por um rim, uma das poucas doações que podem ser feitas em vida

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Um gesto de amor em família garantiu à cuidadora Mariléa Rodrigues, de 45 anos, uma nova vida. Diagnosticada com insuficiência renal crônica, ela ficou sob cuidados conservadores durante cinco anos até que os médicos recomendaram um transplante de rim – um dos poucos órgãos cuja doação pode ser realizada ainda em vida. “No meu caso, é graças ao ‘sim’ da minha irmã que tenho a oportunidade de estar viva hoje”, relata, emocionada.

Mariléa conta que, assim que ficou a par da condição clínica, reuniu a família para comunicar sobre a necessidade eventual de um transplante. “Quando descobri a doença, chamei a minha família, minhas irmãs, e falei de que futuramente precisaria de uma doação delas. Todas se predispuseram a realizar os testes de compatibilidade”, explica.

Das seis irmãs, apenas duas eram 100% compatíveis com Mariléa. Entre elas, estava a professora Sandra Maria Rodrigues, 43, que mais tarde veio a ser a sua doadora. “Ela sempre falava que seria a minha doadora, sempre dizia: ‘Eu que vou doar. O seu rim está aqui comigo’”, narra. “Agradeço a Deus e à minha irmã todos os dias por estar viva. Achei que não estaria aqui hoje para criar meus filhos”, prossegue a cuidadora, que é mãe de três.

Mariléa foi atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), tendo sido a cirurgia realizada no Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), uma das unidades de referência no procedimento. Ela lembra até hoje do dia em que fez o transplante: “No dia, eu e minhas irmãs fomos de metrô, e era uma alegria contagiante. Eu estava ansiosa para receber meu transplante e ter uma vida nova. É um misto inexplicável de sentimentos. Acho que nunca vou conseguir transmitir em palavras o que isso significou para mim”.

Tempo reduzido

Responsável técnica pelos transplantes renais do HBDF, a médica Viviane Brandão explica que o rim é um dos poucos órgãos que permite a realização do chamado transplante inter vivos, ou seja, com o doador ainda vivo. “Também existe a doação em vida de partes de órgãos, como fígado e pulmão, além da doação de medula óssea, que é um tecido”, detalha.

Segundo ela, uma das vantagens do procedimento é o tempo reduzido na espera, uma vez que, havendo compatibilidade com o doador vivo, o receptor não precisa ser incluído na lista. “A análise da compatibilidade também é mais fácil: checamos a compatibilidade de tipo sanguíneo entre doador e receptor, de HLA [antígeno leucocitário humano, em tradução livre], e de exames imunológicos”, acrescenta.

Para se tornar um doador em vida, é preciso ter idade superior a 18 anos, declarar a vontade de doar por escrito e ter vínculo familiar de até quarto grau com o receptor. A legislação brasileira também permite a doação entre cônjuges

A médica ressalta, porém, que os transplantes de órgãos de doadores vivos são procedimentos complexos e devem ser realizados com extremo cuidado e atenção à saúde tanto do doador quanto do receptor. “É preciso que ambos sejam submetidos a uma série de exames para podermos prosseguir. É realizada toda uma triagem a fim de garantir que o doador não tenha nenhum malefício após o transplante”, explica.

Para se tornar um doador em vida, é necessário ter idade superior a 18 anos, declarar a vontade de doar por escrito e ter vínculo familiar de até quarto grau com o receptor. A legislação brasileira também permite a doação entre cônjuges, enquanto pessoas de fora da família só podem doar por meio de autorização judicial.

Números

Dados da Revista Brasileira de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), mostram que, entre janeiro e junho, foram realizados 2.847 transplantes renais, sendo apenas 382 com doadores vivos. O DF, segundo a Secretaria de Saúde (SES), contabilizou 69 procedimentos do tipo no período – 14 intervivos e 55 com doadores mortos.

Hoje, a maior demanda nacional é pela doação de rins. A ABTO calcula que 32 mil pacientes aguardam na lista de espera. Deste total, 667 receptores são moradores da capital federal.

“Depois que passei pelo transplante, tive um filho e levo uma vida muito próxima do normal”Robério Melo, presidente do Instituto Brasileiro de Transplantados

O presidente do Instituto Brasileiro de Transplantados, Robério Melo, ressalta que o estímulo à doação, tanto em vida quanto após o diagnóstico de morte encefálica, segue sendo a única ferramenta para redução da lista de espera. “É simples: quanto mais gente doar, menos pessoas na fila. O transplante é, muitas vezes, a única alternativa de sobrevivência dessa pessoa”, enfatiza.

Melo, que é transplantado de fígado, destaca que, além da sobrevivência, o transplante traz qualidade de vida para o receptor. “A vida é 90% normal; não é em sua totalidade porque há uma série de cuidados que esse transplantado vai precisar tomar para o resto da vida. Depois que passei pelo transplante, tive um filho e levo uma vida muito próxima do normal”, diz.

Por Agência Brasília

Foto: Lúcio Bernardo Jr./ Agência Brasília / Reprodução Agência Brasília

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