Extrato de alho pode ser aliado na higiene bucal

Estudo constata propriedades antibacterianas no bochecho feito com extrato da erva, abrindo caminho para futuros produtos naturais no combate à cárie e à doença periodontal. Especialistas apontam a necessidade de mais pesquisas para validar a descoberta

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O extrato de alho demonstra eficácia antimicrobiana comparável a outros antissépticos e desinfetantes bucais amplamente utilizados no dia a dia, como a clorexidina, de acordo com cientistas médicos da Universidade de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos. Publicado no Journal of Herbal Medicine, o estudo sugere que, embora o enxaguante à base da hortaliça possa causar mais desconforto do que as substâncias tradicionalmente encontradas nas farmácias, ele oferece efeitos residuais mais duradouros.

“A clorexidina é amplamente utilizada como padrão ouro para enxaguantes bucais, mas está associada a efeitos colaterais e preocupações com a resistência antimicrobiana”, observam os autores. “O alho (Allium sativum), conhecido por suas propriedades antimicrobianas naturais, surgiu como uma alternativa potencial”, escreveram no artigo, uma revisão sistemática de 389 pesquisas científicas, na qual comparam a eficácia antimicrobiana do extrato de alho com a clorexidina na prática clínica, avaliando a possibilidade de agir como um substituto fitoterápico.

Segundo os pesquisadores dos Emirados Árabes, na análise estão incluídos ensaios clínicos que fazem a comparação entre o enxaguante herbal e a clorexidina. Os resultados, afirmam, indicam que concentrações mais elevadas do antisséptico com extrato de alho demonstraram eficácia antimicrobiana comparável ao do desinfetante tradicional. “A eficácia variou conforme a concentração do enxaguante bucal e a duração da aplicação, contribuindo para as diferenças nos resultados”, afirma a revisão. “Alguns estudos demonstram que a clorexidina é mais eficaz para elevar o pH da placa bacteriana, enquanto outros relataram que o extrato de alho é melhor em determinadas concentrações.”

Desconforto

Os autores, porém, ressaltam que o enxaguante bucal com alho pode causar maior desconforto nos usuários. As principais reações adversas relatadas são sensação de queimação e odor desagradável, “o que pode afetar a disposição dos pacientes em substituir a clorexidina por alternativas à base de alho”, afirmaram. A odontopediatra Ilana Marques, da IGM Odontologia para Família, em Brasília, acredita que as características da erva impedem que, hoje, a adesão ao antisséptico vegetal seja viável. “O sabor e o odor interferem totalmente. O principal desafio, além da falta de padronização da formulação e da concentração ideal, é a adesão. O alho tem odor muito marcante, sabor forte e pode causar ardência. Nos estudos analisados, esses efeitos foram relatados e diminuem muito a aceitação por parte dos pacientes”, diz. 

Embora reconheçam as limitações, os autores do artigo dizem que há evidências substanciais da eficácia antimicrobiana do extrato de alho. “Encontramos reduções significativas na contagem bacteriana em relação ao nível basal, sugerindo o possível uso do enxaguante bucal com extrato de alho como uma alternativa viável à clorexidina em certos contextos”. Segundo os cientistas, a erva bulbosa é conhecida por fortes propriedades contra alguns tipos de microrganismos, incluindo bactérias e fungos. “Por décadas, cientistas têm buscado aproveitar um de seus compostos, a alicina, que tem propriedades antimicrobianas robustas”. 

Para os autores do artigo, o trabalho atual contribui para a compreensão do papel antimicrobiano do extrato de alho em comparação com agentes sintéticos. “No entanto, a maioria dos estudos é in vitro, varia em métodos e carece de padronização clínica, o que destaca a necessidade de estudos mais abrangentes”, reconhecem. A odontopediatra Ilana Marques acredita que a revisão é promissora, embora preliminar: “O alho tem compostos naturais potentes e o estudo mostra que há um caminho promissor para alternativas naturais na higiene bucal”, diz.

Porém, também diz que muitas pesquisas devem ser feitas antes de se pensar em adotar o enxaguante herbal na prática clínica. “Por enquanto, nada substitui a clorexidina quando o objetivo é controle eficaz de microrganismos. Não se trata de usar receitas caseiras, e sim de acompanhar a evolução da ciência. A mensagem é: as pesquisas estão avançando, mas as recomendações clínicas continuam as mesmas.”

Por Painel da Cidadania

Fonte Correio Braziliense

Foto: F. Antewan/Divulgação 

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