Cientistas da Universidade McMaster, no Canadá, em colaboração com pesquisadores da Universidade de Illinois em Chicago, nos Estados Unidos, e da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, descobriram um potencial novo antibiótico capaz de eliminar algumas das bactérias mais perigosas e resistentes a medicamentos. O remédio consegue matar os agentes patogênicos, atacando uma vulnerabilidade que era, até então, desconhecida. Para os pesquisadores, o resultado do trabalho, publicado ontem na revista Nature, abre caminho para uma classe inédita de tratamento contra infecções.
O novo composto, chamado manikomycin (manimicina), foi identificado por uma equipe liderada pelo professor Gerry Wright, da Universidade McMaster, e demonstrou eficácia inicial contra diversos patógenos, incluindo Salmonella, E. coli e Klebsiella. Essas bactérias causam infecções no trato urinário, sistema respiratório e gastrointestinal e costumam ser resistentes a tratamento.
“Nenhum antibiótico prescrito em clínicas, hoje em dia, faz o que a manimicina faz”, frisa Wright. “Nem azitromicina, nem tetraciclina, nenhum deles. Portanto, não apenas descobrimos um candidato a medicamento, como também estabelecemos um novo alvo em bactérias que pode ser explorado com outros remédios.”Play Video
Minifábrica
Os cientistas destacam que a maioria dos antibióticos usados atualmente tem como alvo as mesmas vulnerabilidades no ribossomo — estrutura celular que produz proteínas —, por isso, as bactérias conseguem desenvolver diferentes estratégias de defesa. O novo composto ataca uma parte diferente da estrutura celular — o sítio de saída — deixando os patógenos indefesos.
“Mesmo medicamentos recém-descobertos que atacam esses mesmos alvos antigos podem, rapidamente, enfrentar resistência. No entanto, ao longo da história da medicina, não exercemos nenhuma pressão seletiva sobre essa parte específica, então, as bactérias não possuem mecanismos de resistência à manimicina”, ressalta Wright.
O líder da pesquisa compara o ribossomo a uma linha de montagem de fábrica. Os componentes finalizados, segundo ele, precisam ser removidos da esteira antes que a próxima peça chegue. A manimicina bloqueia a saída, fazendo com que todo o processo de montagem trave e, eventualmente, pare por completo. Logo, sem a capacidade de produzir proteínas, as bactérias não conseguem sobreviver.
Conforme Werciley Vieira Júnior, infectologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, como a substância atua em uma nova área, não explorada anteriormente, pode ser definida, sim, como uma nova classe de antibiótico. “Descobrir novas fórmulas e maneiras de agir diversifica o tratamento e facilita o combate à resistência bacteriana. Lógico que nós ainda temos que trabalhar muito, pois esse problema não é uma coisa simples de ser resolvida. Ainda vamos aprender a aplicar essas novas drogas no mercado e compreender sua aplicação nas pessoas.”
A pesquisa sobre a manikomycin é baseada em um trabalho que começou há mais de 75 anos. Por volta de 1950, os cientistas descobriram que a bactéria presente no solo Streptomyces rimosus produzia oxitetraciclina, um poderoso medicamento que, mais tarde, ajudou a inaugurar uma nova era dos antibióticos na medicina.
Embora essa descoberta tenha sido relevante, a S. rimosus e bactérias relacionadas foram abandonadas há muito tempo como fonte potencial de novos antibióticos. “Existe uma percepção generalizada na ciência de que elas já foram completamente exploradas, que encontramos tudo o que havia para achar. Nosso laboratório descobriu que esse não é o caso”, destaca Wright.
Para a pesquisa, o grupo utilizou uma técnica laboratorial avançada, chamada fracionamento, para descobrir o novo antibiótico. Ao filtrar a oxitetraciclina e outros compostos abundantes dos compostos produzidos pela S. rimosus, os pesquisadores conseguiram isolar moléculas mais raras que haviam passado despercebidas ao longo dos anos.
Manpreet Kaur, pós-doutoranda na Universidade McMaster e primeira autora do estudo, afirma que encontrar um candidato a medicamento viável dessa forma sinaliza novas oportunidades para a descoberta de antibióticos. “Provavelmente, ainda há muito a ser descoberto por meio do fracionamento. Revisitar os extratos de bactérias já bem estudadas, como Streptomyces, pode levar a achados semelhantes no futuro.”
Agora os cientistas avançam com a manikomycin rumo ao desenvolvimento clínico. Eles já demonstraram que o novo antibiótico não é tóxico para células humanas e que funciona bem em um modelo de infecção controlado em laboratório. No momento, buscam entender quanto tempo o composto, que já deu origem a 60 derivados, permanece ativo no organismo.
Palavra de especialista// Entusiasmo equilibrado
César Omar Carranza Tamayo, infectologista e professor de Medicina da Universidade Católica de Brasília (UCB)
“Acredito que essa descoberta reforça uma lição estratégica: a crise de resistência antimicrobiana não será enfrentada apenas com mais antibióticos, mas com outras formas de identificar medicamentos, novos mecanismos e melhor uso dos antimicrobianos já existentes. A molécula descoberta é promissora porque utiliza um alvo pouco ou nada explorado. No entanto, seu desenvolvimento ainda pode fracassar se não superar problemas de entrada na célula, estabilidade no organismo, biodisponibilidade e desenvolvimento de resistência. Portanto, o entusiasmo deve ser equilibrado: a manikomycin é um achado cientificamente importante, mas não substitui medidas já comprovadas — diagnóstico microbiológico rápido, vigilância de tolerância, controle de infecção hospitalar, vacinação, saneamento e programas de uso racional de antimicrobianos. Em outras palavras, ela aponta um caminho para o futuro, mas a resposta a esse problema continuará sendo necessariamente combinada entre inovação farmacológica, gestão responsável e saúde pública.”
Fonte Correio Braziliense
Foto: Ksenia Yakovleva/Unsplash










