Remédios emagrecedores são aliados da fertilidade, apontam cientistas

A nova classe de medicamentos pode melhorar os níveis hormonais e a qualidade do esperma em homens com baixa testosterona relacionada à obesidade, além de tratar os efeitos de sobrepeso

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Os medicamentos agonistas de GLP-1 não prejudicam a fertilidade masculina após uso prolongado. É o que foi revelado, nesta segunda-feira (15/6), no congresso anual da Sociedade de Endocrinologia dos Estados Unidos (Endo 2026). Além disso, os pesquisadores ingleses que realizaram o trabalho descobriram que essa classe de remédios pode melhorar os níveis hormonais e a qualidade do esperma em homens com baixa testosterona relacionada à obesidade, além de tratar os efeitos subjacentes ao sobrepeso.

Cientistas dos hospitais universitários de Coventry e Warwickshire e da Faculdade de Medicina de Warwick, no Reino Unido, fizeram a descoberta após analisarem diversos ensaios clínicos. A equipe se concentrou em estudos que compararam os GLP-1 a outros tratamentos em homens de 18 a 65 anos. 

Embora os pesquisadores tenham analisado principalmente, as alterações na testosterona e em outros hormônios que controlam a função testicular, eles também examinaram a qualidade do esperma, o peso corporal, o açúcar no sangue, o colesterol e a saúde metabólica geral. Os relatórios científicos mostraram que os agonistas de GLP-1, além de não causarem impactos negativos na fertilidade, promovem benefícios. 

Um estudo de 24 semanas com semaglutida revelou melhorias na forma dos espermatozoides e nos níveis de colesterol, mantendo as taxas hormonais estáveis. Em homens com obesidade e baixa testosterona devido ao excesso de peso, um estudo de 16 semanas com liraglutida demonstrou que houve aumento nos níveis da substância. Os resultados gerais de saúde foram melhores do que com a reposição hormonal feita isoladamente.

“Esse trabalho apoia uma mudança de paradigma, deixando de prescrever reposição de testosterona para homens com obesidade e baixa testosterona e focando no tratamento da causa subjacente — excesso de peso e saúde metabólica precária —, o que pode restaurar naturalmente os níveis hormonais e preservar a fertilidade”, afirmou a endocrinologista e líder da equipe, Pratibha Natesh, cientista da Faculdade de Medicina de Warwick.

Causas imediatas

Conforme Jamilly Drago, endocrinologista da clínica Metasense, em Brasília, o hipogonadismo masculino — deficiência de testosterona nos homens — tem múltiplas causas, mas uma das principais é a obesidade. “Portanto, quando temos um tratamento extremamente eficaz para tratar o excesso de peso também estamos tratando esse desequilíbrio hormonal.” 

Drago destaca que os análogos de GLP-1, bem como os agonistas duplos de GLP-1 e GIP, são medicações extremamente potentes. “Estudos demonstram que esses tratamentos promovem melhora dos níveis de testosterona e, consequentemente, uma recuperação natural da fertilidade masculina, sem a necessidade de reposição hormonal. Isso é particularmente interessante para casais que estão tentando engravidar, pois representa uma possibilidade terapêutica antes mesmo de considerar procedimentos como fertilização assistida ou coleta de material para reprodução.”

Ao oferecer informações claras e baseadas em evidências sobre medicamentos para perda de peso e diabetes à base de GLP-1, Natesh espera que a pesquisa ajude as pessoas a tomarem decisões informadas sobre esses medicamentos. “Melhorar a saúde metabólica pode ter efeitos positivos que vão muito além da perda de peso”, disse ela.

Segundo a endocrinologista e professora do Instituto de Educação Médica, Dhianah Santini, não há nenhuma evidência até o momento de que os agonistas de GLP-1, mesmo quando utilizados por muitos anos, afetam a fertilidade masculina. “Por outro lado, temos dados mostrando melhora das chances de mulheres engravidarem feminina, porque a obesidade também está muito associada à infertilidade, doenças inflamatórias, endometriose, entre outras condições.”

“Até um termo que passou a ser utilizado recentemente — bebês do Ozempic — porque o uso do medicamento nos últimos anos vem aumentando a fertilidade em algumas mulheres. Muitas pacientes com síndrome dos ovários policísticos e resistência à insulina tinham dificuldade para engravidar e, à medida que começaram a emagrecer, observaram melhora”, completa a especialista.

Cautela necessária

João Brunhara, urologista e membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida

A obesidade acarreta consequências para o organismo em vários domínios: hormonal, sexual, circulatório, respiratório, entre outros. Portanto, é plausível que um tratamento que a combata possa trazer benefícios. Agora, precisamos ter bastante cuidado ao afirmar quais serão as consequências de longo prazo, porque isso ainda não é conhecido. O que sabemos até o momento é que existe plausibilidade de que o uso dos agonistas de GLP-1 melhore parâmetros hormonais e a fertilidade, por exemplo. Naturalmente, como ocorre com qualquer novidade, é preciso cautela ao fazer afirmações sobre eventuais consequências de longo prazo. Neste momento, não temos como saber quais serão esses efeitos, porque ainda não existem pacientes que tenham utilizado esse medicamento por 10 ou 20 anos, como eu disse.

Modificações no gasto energético, aponta estudo

A tirzepatida, um agonista de GLP-1 que também estimula os receptores de GIP — hormônio intestinal aliado na liberação de insulina — não apenas ajuda na perda de peso, mas também ativa o tecido adiposo marrom, modificando a maneira que o corpo queima energia. Os resultados são de um estudo apresentado ontem na Endo 2026.

“No estudo Tabfat, fizemos uma pergunta diferente: além de comer menos, a tirzepatida também altera a forma como o corpo queima energia — especificamente por meio do tecido adiposo marrom, um tipo de gordura metabolicamente ativo que produz calor e consome calorias”, disse Rok Herman, cientista do departamento de endocrinologia, diabetes e doenças metabólicas do Centro Médico Universitário de Ljubljana, na Eslovênia.

Há muito tempo a ciência acreditava que o tecido adiposo marrom desaparecia após a infância, a presença em adultos só foi confirmada por meio de estudos de imagem no final da década de 2000. A atividade dessa parte do organismo é significativamente suprimida na obesidade e, até então, a exposição moderada ao frio era o seu ativador mais potente conhecido.

Em um ensaio clínico com mulheres pré-menopáusicas obesas, Herman e seus colegas utilizaram exames de imagem com estímulo de frio para medir a atividade do tecido adiposo marrom antes e após 24 semanas de tratamento.

“Descobrimos que a tirzepatida aumentou significativamente a atividade e o volume do tecido adiposo marrom, além de apresentar potenciais indícios de conversão da gordura subcutânea branca em ‘bege’ metabolicamente mais ativa”, afirmou Herman.

O medicamento aumentou a atividade do tecido adiposo marrom detectável de 41,2% para 64,7% das participantes, enquanto nenhuma alteração comparável foi observada no grupo placebo. “Também ficamos encorajados pela consistência do sinal em outras modalidades de imagem empregadas no estudo, que podem capturar diferentes componentes da biologia da gordura marrom”, acrescentou Herman.

“Isso adiciona uma nova camada à nossa compreensão da nova geração de medicamentos antiobesidade. Eles não são apenas supressores de apetite — a tirzepatida também parece modular o gasto energético em nível tecidual, abrindo um caminho plausível para futuras terapias que combinem a regulação do apetite com a ativação termogênica.” O cientista espera que pesquisas futuras mensurem, estudem e aprimorem o uso da atividade da gordura marrom e bege como um alvo para uma abordagem personalizada na perda de peso.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Reprodução/ Freepik