Aumenta o uso de cigarro eletrônico no DF, e especialistas alertam para riscos graves

Pesquisa aponta que o consumo de dispositivos para fumar, como vape, disparou 508,5% no país. Na capital, 43% dos adolescentes admitiram o uso dos aparelhos. Especialistas alertam para os riscos, e polícia intensifica a fiscalização

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Enquanto o uso de narguilé perde espaço entre os adolescentes do Distrito Federal, os cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes, avançam em ritmo acelerado e preocupam autoridades de saúde e segurança pública. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 (a mais recente disponibilizada) mostram que o consumo de dispositivos eletrônicos para fumar disparou 508,5% no país, passando de 5,9% para 35,9%, entre 2019 e 2024. No mesmo período, a experimentação de narguilé entre estudantes de 13 a 17 anos caiu de 18,9% para 11,4%, uma redução de 39,7%. 

A tendência é mais acentuada no Distrito Federal, que lidera nesse indicador: 43% dos adolescentes experimentaram vapes ou pods. Em meio ao avanço desses dispositivos, a Vigilância Sanitária do DF intensificou as ações de fiscalização e apreendeu mais de 9,5 mil cigarros eletrônicos em 2026, além de interditar 78 estabelecimentos por comercialização irregular. 

Apesar de a venda dos cigarros eletrônicos ser proibida no Brasil, os aparelhos são encontrados com facilidade em comércios, distribuidoras de bebidas e eventos. Apenas neste ano, a Vigilância Sanitária realizou mais de 8 mil vistorias em diferentes tipos de estabelecimentos. Como resultado das ações, foram lavrados 329 autos de infração relacionados à venda irregular dos dispositivos.

Numa breve caminhada pelos centros comerciais da capital é possível encontrar diversos estabelecimentos que disponibilizam os cigarros à clientela. O valor varia de acordo com a quantidade de puxadas (puffs) que é possível fazer no no vape, o sabor e até a quantidade de nicotina. Os preços médios ficam em torno de R$ 100 para vaporizadores de até 10 mil puxadas. Na internet, versões mais sofisticadas podem ser encontradas, mas o valor é bem mais elevado: até R$ 680.

O crescimento do uso dos cigarros eletrônicos entre os jovens acompanha uma tendência observada em todo o país. A PeNSE 2024 apontou que 29,6% dos estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos experimentaram o produto, percentual muito superior aos 16,8% registrados em 2019. Entre os adolescentes, as meninas apresentam índices mais elevados de experimentação, com 31,7%, contra 27,4% dos meninos. 

Nos últimos meses, as ações de fiscalização foram ampliadas em pontos de consumo de narguilé. Dados da Secretaria de Saúde mostram que, entre janeiro e maio de 2026, foram realizadas 201 inspeções relacionadas à comercialização de produtos fumígenos, contra 43 no mesmo período do ano anterior, um aumento de aproximadamente 367%.

Segundo a pasta, o reforço nas operações é acompanhado por uma redução proporcional das irregularidades encontradas. “Observamos a queda no percentual de apreensões e infrações, demonstrando que o setor está, progressivamente, eliminando a circulação de produtos fumígenos irregulares, impróprios para consumo ou sem registro de procedência”, destaca a secretaria. 

Tratamento

Os reflexos desse consumo são percebidos nos serviços de tratamento contra o tabagismo oferecidos pela Secretaria de Saúde. Dados da pasta mostram que, em 2025, 18,9% dos homens e 16,2% das mulheres entre 18 e 24 anos que participavam de grupos de cessação do tabagismo faziam uso de cigarros eletrônicos.

Entre esses pacientes, 43,2% apresentavam grau elevado de dependência à nicotina e outros 24,3% foram classificados com dependência muito elevada. Apenas 10,8% dos participantes permaneceram até a quinta sessão dos grupos terapêuticos, enquanto mais de 75% precisaram recorrer a medicamentos para auxiliar no processo de interrupção do consumo de nicotina.

A Secretaria de Saúde não tem dados acerca dos reflexos do consumo do narguilé, mas alerta que o produto está longe de ser uma alternativa segura ao cigarro convencional. “A água não funciona como um filtro, e a fumaça inalada contém nicotina, monóxido de carbono, metais pesados e diversas substâncias cancerígenas”, ressaltou a secretaria em nota.

A percepção de que o cigarro eletrônico seria uma alternativa inofensiva levou Mauro Ilibanise*, 25 anos, a iniciar o consumo durante a pandemia de covid-19. Com o passar do tempo, a frequência aumentou e os aparelhos passaram a ter capacidades cada vez maiores. “Foi quando percebi que o negócio estava sério”, afirmou. Ele tenta parar, mas reconhece ser essa uma batalha árdua. “Quando o dia é muito pesado, penso: ‘Hoje eu mereço’. Ainda pretendo parar para sempre”, disse.

Após anos de consumo, Heloísa Urigeiros*, 27, conseguiu abandonar o hábito e hoje afirma que a decisão transformou sua rotina. Ela afirmou que a maior dificuldade foi romper o hábito associado a momentos do dia, como pausas no trabalho, encontros com amigos e situações de estresse. “Foi um processo difícil, mas valeu a pena. Hoje me sinto mais livre e sem aquela necessidade constante de usar”, enfatizou.

Risco à vida

O pneumologista William Schwartz, coordenador de pneumologia do Hospital Santa Lúcia, chama atenção para uma condição associada exclusivamente ao uso dos cigarros eletrônicos: a Evali, sigla em inglês para lesão pulmonar associada ao uso de produtos de vaporização. A doença pode provocar insuficiência respiratória grave e exigir internação hospitalar (confira outros riscos abaixo).

“Ela pode ser fatal e acometeu diversos jovens da cidade”, alerta Schwartz. Além da Evali, o médico cita quadros como hemorragia alveolar, pneumonia eosinofílica e lesões nas pequenas vias aéreas entre as complicações observadas em usuários. Segundo William, outra preocupação é sobre a nicotina presente nos cigarros eletrônicos, que causa elevado potencial de dependência e pode interferir no desenvolvimento cerebral. “Quanto mais precoce a exposição, maior tende a ser a dependência”, alertou. 

Schwartz chamou atenção ao risco de doenças cardiovasculares, intoxicação por monóxido de carbono e diversos tipos de câncer associados ao consumo de narguilé. Outro problema observado é a transmissão de infecções pelo compartilhamento do aparelho. “O narguilé costuma ser visto como algo social, recreativo e menos perigoso, principalmente entre os jovens”, explicou. 

Na avaliação da médica Ellen Adriani Lopes de Oliveira, integrante da plataforma de consultas médicas INKI, um dos principais equívocos sobre os cigarros eletrônicos é acreditar que o vapor produzido pelos dispositivos seja inofensivo. Segundo ela, os usuários inalam uma combinação de nicotina, solventes, aromatizantes, partículas ultrafinas e até metais. “Essas substâncias podem aumentar a inflamação pulmonar e desencadear sintomas como tosse e falta de ar”, disse.

Ellen Adriani ressaltou o grande potencial de dependência provocada pela nicotina presente nos dispositivos. Segundo a médica, muitos modelos modernos conseguem fornecer altas concentrações da substância de forma rápida e com menor desconforto durante a inalação, favorecendo o uso repetido ao longo do dia. Entre adolescentes e jovens, o risco é maior. Para ela, “a exposição precoce à nicotina pode aumentar a vulnerabilidade à dependência.” 

O narguilé também está associado a uma série de problemas de saúde que atingem, principalmente, os sistemas respiratório e cardiovascular. Entre as consequências mais frequentes estão bronquite crônica, piora da função pulmonar, aumento do risco de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), hipertensão arterial e doenças coronarianas. “Muitas pessoas acreditam que, por ser usado em contexto social e com sabores adocicados, ele seria menos viciante. Isso é uma percepção equivocada”, acrescentou.

Ação criminosa

Segundo a Polícia Civil (PCDF), a comercialização dos cigarros eletrônicos ocorre de forma cada vez mais sofisticada. As vendas combinam pontos físicos com estratégias de divulgação em redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de comércio eletrônico. “Esse modelo descentralizado representa um dos principais desafios para a fiscalização e para a investigação criminal”, destacou a corporação em nota.

A PCDF demonstrou preocupação com o crescente interesse de adolescentes e jovens pelos dispositivos eletrônicos. Dados nacionais indicam aumento da experimentação e do consumo entre esse público, realidade que também aparece nas investigações policiais. “Frequentemente, jovens aparecem como consumidores e, em alguns casos, também participam das etapas mais periféricas da cadeia de comercialização”, informou. 

A Polícia Civil afirma que o foco das investigações não se limita aos vendedores em pontos comerciais. Segundo a corporação, o trabalho de inteligência busca identificar fornecedores, distribuidores e financiadores das operações ilegais. “O objetivo é identificar as rotas de abastecimento, compreender a estrutura financeira das atividades ilícitas e responsabilizar todos os envolvidos”, informou a PCDF. 

*Nomes fictícios para resguardar a privacidade dos entrevistados

Fonte Correio Braziliense
Foto:  Maurenilson