Projeto social promove saúde bucal a pessoas em situação de vulnerabilidade

Projeto social Odontologia na Rua atende pessoas em situação de vulnerabilidade com tratamentos de cáries, limpezas, exames e restaurações. O trabalho, realizado pela UnB, já atendeu a mais de 600 pacientes gratuitamente

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Um dos primeiros pré-requisitos para conseguir atendimento nas Unidades de Pronto-Atendimento é ser morador de uma determinada região. Documentos de identificação, comprovantes de residência e longas horas de fila aumentam a distância entre pessoas em situação de rua e a conservação da saúde bucal. Pensando nisso, o dentista Gilberto Pucca deu início ao projeto Odontologia na Rua, pensado para estabilizar a saúde oral dessa população vulnerável. O serviço começou como uma extensão do curso de odontologia da Universidade Brasília (UnB), e hoje envolve outras especialidades de diferentes faculdades.

Os dentes, além de fazerem parte da apresentação pessoal de um indivíduo, permitem a mastigação; a primeira etapa da ingestão de alimentos. Problemas na gengiva, lábios e demais mucosas não apenas impedem a qualidade de vida e a autoestima, como podem vir a ocasionar doenças graves, como o câncer de boca.

De acordo com Gilberto, estágios avançados de câncer bucal podem demandar cirurgias, com a possibilidade de comprometimento na habilidade alimentar. “Quanto mais precoce o diagnóstico, maiores são as chances do tratamento conseguir preservar a qualidade de vida do paciente”, descreve o especialista em saúde pública. No consultório do projeto, o profissional conta já ter identificado um tumor maligno em um dos pacientes.

No Centro Pop de Brasília, localizado na Asa Sul, o Projeto Odontologia nas Ruas realiza desde orientações sobre higiene bucal à retirada de cáries, restaurações dos dentes, limpezas e avaliações clínicas capazes de identificar doenças em estágio inicial. Os pacientes não pagam pelo serviço e também não precisam apresentar documentos para serem atendidos.

Gilberto explica que o projeto também encaminha os pacientes para o Hospital Universitário de Brasília (HUB-UnB), em casos de tratamentos mais complexos. “Utilizamos da técnica Odontologia de Mínima Intervenção, focada no diagnóstico precoce e na prevenção”, destaca. Os especialistas do projeto transportam os pacientes até o HUB, onde o paciente tem acesso a procedimentos cirúrgicos, próteses dentárias e demais tratamentos de alta complexidade.

Paciente do Centro Pop, Fernando Ferreira, 56 anos, procurou o atendimento quando estava com graves dores na arcada dentária. Após realizar o procedimento de limpeza dos dentes, ele foi encaminhado para o HUB, onde precisou realizar a extração de quatro dentes. “Fui muito bem tratado, agora venho para os retornos e estou tentando agendar uma prótese”, descreveu. Ao sair da sala, deu um recado aos dentistas: ia lavar o carro deles (dos dentistas). Apesar do tratamento ser 100% gratuito, alguns dos pacientes procuram meios para agradecer aos profissionais.

Luz da visibilidade

No Centro Pop, os pacientes têm acesso a quatro refeições diárias, banhos, socialização e áreas para descanso. Os profissionais do espaço buscam atender às demandas dos pacientes de maneira integral. Segundo a psicóloga e assistente social do centro, Silvana Petersen, as pessoas em situação de rua que frequentam o lugar são escutadas para solução dos problemas enfrentados por elas. “Aqui nós realizamos um trabalho intersetorial, entre uma política e outra com base nos sete eixos que orientam o Plano Nacional Ruas Visíveis (assistência social, segurança alimentar, saúde, violência institucional, cidadania, educação e cultura, habitação, trabalho e renda e produção e gestão de dados)”, explica a profissional.

Com a adesão do projeto odontológico ao espaço, fazer a manutenção do cuidado bucal, que é tanto funcional quanto estético, facilita o acesso dos usuários, que muitas vezes sofrem com a dificuldade de conseguir transporte e atendimento nas unidades públicas de saúde.

Este é o caso do Teodorico Telis, de 66 anos. Telis sofreu um acidente de trabalho que atingiu a sua perna, o que resultou na impossibilidade de voltar ao mercado de trabalho. O paciente do Centro Pop demonstrou gratidão pelo atendimento recebido. “Eu não consigo me deslocar pra muito longe. Com os dentistas aqui, consigo resolver sem precisar me deslocar muito”, desabafa Telis.

O idoso foi até o consultório para retirar os pontos de uma intervenção na gengiva. No local, ele contou aos profissionais sobre a necessidade de uma dentadura, devido à perda da maior parte da sua arcada dentária. Lá, conseguiu encaminhamento para o HUB e será levado pela própria equipe para realizar os atendimentos na Asa Norte. “É a primeira vez que venho aqui, fui muito bem recebido pela equipe”, relatou.

O idealizador do projeto, Gilberto Pucca, descreve que as pessoas sentem-se importantes ao serem escutadas. O trabalho, além do cuidado odontológico, é capaz de estimular os pacientes a criar vínculos. “Em média, nós atendemos 20 pessoas por dia com tratamento de estabilização. Muitos dos que saem daqui, saem com mais autoconfiança”, descreve. Atualmente, o projeto conta com 20 alunos da UnB, da Universidade do Distrito Federal (UnDF), Centro Universitário Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb) e Centro Universitário Euro-Americano (Unieuro). O atendimento é supervisionado por professores.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Davi Pereira/CB/D.A Press