Endocrinologista destaca nova fase no tratamento do diabetes

Polyana Gomes explica relação entre aumento na obesidade, mudanças nos hábitos alimentares e crescimento dos casos da doença no país. Ela estima que, a cada 100 brasileiros, pelo menos 10 podem ter a doença

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endocrinologista Polyana Gomes foi a convidada do CB.Saúde — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília — nessa quinta-feira (27/8) e falou sobre o avanço do diabetes no Brasil. Às jornalistas Sibele Negromonte e Paloma Oliveto, a especialista apresentou o panorama atual da doença no país. Ela estima que, a cada 100 brasileiros, pelo menos 10 podem ter a doença, que costuma ser “silenciosa”, destacou. Confira os principais trechos da conversa:

Como está o atual panorama do diabetes no Brasil?

A doença tem avançado muito, principalmente no Brasil, onde, a cada 100 pessoas, 10 ou mais podem ter diabetes. Os números cresceram por conta do que chamamos de ‘pandemia da obesidade’ que está muito associada ao diabetes tipo 2, o mais comum. Hoje, pessoas não têm mais tempo para fazer exercícios, e a própria alimentação mudou muito, com opções mais rápidas e fáceis.Play Video

De que forma o açúcar refinado influencia esses quadros?

O açúcar é muito gostoso. Reconhecer isso é o primeiro passo para ter consciência e não negar. Existe, sim, o hábito de comer doce diante do prazer envolvido e da relação emocional. Mas o açúcar leva ao aumento temporário de produção de insulina e, com o passar do tempo, ela cai, e a pessoa vai ingerir novamente o açúcar. Há uma dependência em que, quanto mais você come, mais vai querer comer. O diabetes é silencioso, e para pessoa ter consciência do que pode ou não comer precisa fazer um exame.

Existem sintomas da presença do diabetes?

O diabetes tipo 1, que é mais raro, é aquele que as pessoas conhecem como diabetes da criança, do adolescente. A pessoa pode perder peso rápido, ter a boca seca, beber muita água, urinar muito, às vezes, vai desidratar e pode entrar até em coma. No caso do paciente com diabetes tipo 2, o diagnóstico aparece quando o paciente já tem mais de 5 ou 10 anos que ele tem a doença, porque o principal mecanismo, inicialmente, não é a queda da insulina. Esse é o grande detalhe, pode demorar anos, mas é aquele mal que a pessoa não sente, mas está por dentro, silenciosamente, comprometendo órgãos muito importantes, como os rins, o coração e a retina, por exemplo.

O que há de novidade no tratamento de diabetes?

Nos últimos 20 anos, surgiram medicamentos muito bons. Hoje, existem inúmeros medicamentos para tratamento de diabetes tipo 2. Medicamentos eficazes, seguros e que podem mudar o futuro da vida da pessoa. Antes, a gente se preocupava em baixar a glicose e, hoje, nossa preocupação é proteger o rim para que não evolua para a hemodiálise. É proteger o coração para que a pessoa não tenha um infarto, não tenha também outras doenças, como o AVC. Aumenta muito a proporção dessas doenças nos pacientes com diabetes. 

A doença pode levar à morte?

Sim. O diabetes tipo 1, por exemplo, sem tratamento, pode evoluir a óbito rápido. Então, o paciente precisa começar a usar a insulina o quanto antes. No diabetes tipo 2, principalmente nos pacientes que não conhecem o diagnóstico ou que não conseguem fazer o tratamento, a principal causa de mortalidade são as doenças cardiovasculares. A chance do paciente que tem diabetes ter um infarto ou um AVC é muito aumentada.

Há uma revolução dos medicamentos de emagrecimento?

As pessoas acostumaram-se a tratar o diabetes, inicialmente, ou com comprimido ou com insulina, e agora há uma opção maravilhosa que as pessoas estão tendo muito resultado (as canetas emagrecedoras). É uma medicação aplicada, que não é a insulina, mas ao mesmo tempo, descobriu-se que ela também tem efeito ali no aparelho digestivo, diminuindo a velocidade da digestão e dando uma sensação de mais saciedade. O diabetes tipo 2 é o mais prevalente e está associado à obesidade. Com um medicamento, acaba-se resolvendo duas doenças que estão muito interligadas.

Quais os principais efeitos do medicamento no organismo?

É como se você tirasse uma trava ali do processo de emagrecimento. Começou lá atrás com a liraglutida, depois evoluiu para a semaglutida e, hoje, tirzepatida. Descobrimos isso porque a gente tem no nosso corpo. Percebemos que é possível reverter os efeitos da obesidade se você consegue administrar esse hormônio, que seria o hormônio do bem. Nada melhor do que a pessoa que decidiu se cuidar, ter uma mudança de hábitos e ver ali na balança um resultado correspondente a esse cuidado que ela está tendo no corpo. Esse é o principal diferencial.

Ainda há um problema de acesso às canetas emagrecedoras?

Costumo falar para as pessoas que elas podem ter muita esperança no tratamento, porque com o desenvolvimento dessas novas medicações, a queda de patentes e cada vez mais chegando novas moléculas, a tendência é esse tratamento ser muito acessível. É uma nova fase que a gente está vivendo na endocrinologia e na saúde mundial.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press