O avanço dos medicamentos utilizados para o controle do peso, entre eles a tirzepatida, tem despertado expectativas entre mulheres que convivem com o lipedema, uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo desproporcional de tecido adiposo, principalmente nas pernas e, em alguns casos, nos braços. Dor, sensibilidade, sensação de peso e inchaço também podem fazer parte do quadro. A questão que começa a ser investigada pela ciência é se os efeitos da tirzepatida poderiam ir além da perda de peso e beneficiar diretamente os sintomas do lipedema.
Por enquanto, porém, a resposta exige cautela. O lipedema não é sinônimo de obesidade e a redução do peso corporal não significa, necessariamente, eliminar as alterações provocadas pela doença. As duas condições podem coexistir, mas têm características distintas e precisam ser avaliadas separadamente.
A tirzepatida atua sobre os receptores dos hormônios GIP e GLP-1, contribuindo para a redução do apetite, o controle da glicemia e a perda de peso. Com a popularização da medicação, pesquisadores passaram a investigar também possíveis efeitos sobre mecanismos metabólicos e inflamatórios que podem estar relacionados aos sintomas apresentados por mulheres com lipedema.
Levantamento
Os primeiros resultados são considerados promissores, mas ainda não permitem afirmar que o medicamento seja capaz de tratar a doença. Um relato de caso publicado em 2025 descreveu melhora significativa da dor em uma paciente com lipedema após o uso de tirzepatida. Outro levantamento, que reuniu mais de 2,7 mil mulheres, encontrou relatos de redução de dor, inchaço e limitações funcionais entre usuárias de medicamentos que atuam nas vias de GLP-1 e GIP. Como se trata de dados observacionais e baseados em relatos das participantes, contudo, os resultados não comprovam que a medicação tenha sido a responsável direta pela melhora.
Segundo especialistas, o lipedema envolve alterações que não são necessariamente resolvidas com o emagrecimento. A perda de gordura em determinadas regiões do corpo pode ocorrer com a redução do peso, enquanto o tecido afetado pelo lipedema pode apresentar comportamento diferente. Por isso, a resposta ao tratamento varia de uma mulher para outra.
Segundo a nutricionista Marina Gusmão, a tirzepatida pode ser considerada em determinadas situações, especialmente quando o lipedema está associado ao excesso de peso ou a alterações metabólicas, mas não deve ser apresentada como um tratamento específico da doença.
“O Mounjaro (nome comercial da substância) pode trazer benefícios para mulheres com lipedema que também apresentam excesso de peso, resistência à insulina ou alterações metabólicas. Existe a possibilidade de que a medicação ajude a melhorar alguns mecanismos inflamatórios e sintomas da doença, mas ainda não temos evidências suficientes para afirmar que ela trata ou elimina o lipedema”, explica Marina Gusmão.
A utilização do medicamento deve ser avaliada individualmente. Além da indicação clínica, é preciso considerar efeitos adversos, resposta, estado nutricional e composição corporal. A perda rápida de peso também exige atenção à ingestão adequada de proteínas e à manutenção da massa muscular, principalmente quando o tratamento é prolongado.
Multidisciplinar
A abordagem do lipedema não se resume ao controle do peso. O Consenso Brasileiro sobre Lipedema recomenda uma estratégia multidisciplinar, que pode envolver acompanhamento médico, nutricional e fisioterapêutico, além da prática de atividade física e, conforme a necessidade de cada paciente, terapias compressivas.
A alimentação ocupa um papel importante nesse processo. O objetivo não é simplesmente reduzir calorias, mas adequar a dieta às necessidades individuais, favorecer uma composição corporal saudável, preservar músculos e ossos, melhorar parâmetros metabólicos e contribuir para a qualidade de vida.
No caso de mulheres que utilizam tirzepatida, a atenção à alimentação ganha uma dimensão adicional. Como o medicamento pode reduzir significativamente o apetite e provocar sintomas gastrointestinais, como náuseas, sensação de saciedade precoce e desconforto digestivo, existe o risco de a paciente passar a consumir menos alimentos e, consequentemente, ingerir quantidades insuficientes de nutrientes.
Para Marina Gusmão, um dos pontos centrais do acompanhamento nutricional é evitar abordagens excessivamente restritivas. “A estratégia nutricional deve ser individualizada e sustentável. O foco não é apenas perder peso, mas melhorar a composição corporal, controlar sintomas e preservar a saúde metabólica. Dietas muito restritivas costumam gerar mais prejuízos do que benefícios a longo prazo”, afirma.
Outro aspecto é que a atividade física pode contribuir para a preservação da musculatura e para a capacidade funcional. Em mulheres com lipedema, exercícios precisam levar em conta as limitações provocadas pela dor, pelo peso nos membros e pelo inchaço. A orientação profissional pode ajudar a encontrar modalidades e intensidades adequadas.
Início
A possibilidade de medicamentos que atuam sobre GLP-1 e GIP influenciarem sintomas do lipedema é uma frente relativamente nova de investigação. Os relatos de melhora de dor e de outros sintomas levantam hipóteses que precisam ser testadas em estudos clínicos mais amplos e controlados.
Uma das dificuldades é separar os efeitos decorrentes da própria perda de peso daqueles que poderiam estar relacionados a uma ação específica do medicamento sobre processos metabólicos ou inflamatórios. Também é necessário compreender se eventuais benefícios persistem durante o tratamento e depois de sua interrupção.
Enquanto essas respostas não estão disponíveis, especialistas recomendam que a tirzepatida não seja utilizada com a expectativa de eliminar o lipedema. Para mulheres que têm indicação médica para o medicamento por obesidade, sobrepeso associado a condições metabólicas ou outras situações previstas em sua prescrição, uma eventual melhora de sintomas pode ser acompanhada ao longo do tratamento. Isso, porém, é diferente de considerar a medicação um tratamento comprovado para o lipedema.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Raimond Spekking/Divulgação











