Aos 49 anos, a professora aposentada Keila Núbia Barbosa deixou a casa neste domingo (4) para votar no Colégio In-Nova, no Sudoeste. Paciente oncológica e com dificuldades para respirar e se locomover, ela conta que poderia ter optado por não comparecer às urnas, mas decidiu enfrentar o cansaço para exercer o direito ao voto.
Keila descobriu um câncer em julho de 2024 e iniciou o tratamento dois meses depois, após a realização dos exames necessários. Durante a quimioterapia, teve uma trombose pulmonar, precisou ser internada em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por cinco dias e deixou o hospital utilizando oxigênio. Segundo ela, foram mais de 12 meses com o equipamento.
Hoje, ainda sente os efeitos da doença. “Eu dou poucos passos e me canso. Me canso bastante. Meu pulmão ainda não está bom”, relata.
Professora da rede pública do Distrito Federal, Keila foi aposentada por invalidez em 1º de julho. A aposentadoria, no entanto, é uma condição que ela afirma ter dificuldade de aceitar, principalmente pela associação que a palavra “invalidez” pode provocar. “Eu sou uma pessoa de 49 anos que fez mestrado e doutorado na Universidade de Brasília e, quando eu vi ‘invalidez’, eu chorei duas semanas seguidas. Eu entendo que não estou na melhor forma, mas eu não sou uma inválida”, afirma.
Para ela, comparecer à votação é uma forma de reafirmar que continua participando da sociedade. “Poderia ter pedido atestado para minha médica para não vir. Mas eu preciso estar aqui. O país precisa mudar”, diz.
A professora afirma que a decisão de votar está relacionada à preocupação com a polarização política no país e com a relação da população com a ciência. “Eu quero que a gente volte a ser uma nação. Que a gente volte a ser a República Federativa do Brasil, sem essa desconfiança da ciência”, declara.
A decisão de sair de casa tem um significado pessoal. Ela lembra de um vídeo que mostrou aos alunos quando ainda trabalhava como professora, sobre catadores do antigo lixão de Gramacho, no Rio de Janeiro. Uma frase dita por um dos trabalhadores ficou na memória: “Um importa, porque 99 não é 100”.
“Eu sempre fiquei com isso na cabeça. Então, o meu voto vale. Um aqui, outro ali. E a gente junta”, afirma.
Atendimento prioritário
Ao chegar ao Colégio In-Nova, Keila recebeu atenção especial por causa das dificuldades de locomoção e teve prioridade na fila. O atendimento foi acompanhado por Vilma dos Reis Borges, 59 anos, que trabalha pela primeira vez em uma eleição como coordenadora de acessibilidade.
Vilma explica que sua função é auxiliar eleitores com diferentes necessidades, além de tirar dúvidas durante o processo de votação. Entre as situações atendidas estão pessoas cadeirantes, cegas, surdas e com dificuldades de locomoção.
“Eu acho importante fazer essa função porque precisa. E, para mim também, eu queria saber como era trabalhar assim, porque eu nunca tinha trabalhado e tinha essa curiosidade. Estou gostando”, conta.
Segundo ela, a equipe também presta auxílio a eleitores que não necessariamente possuem alguma deficiência ou dificuldade específica, mas precisam de orientação durante a votação.
Para Keila, chegar até a seção eleitoral, apesar das limitações físicas, foi uma escolha consciente. “Com todo o sacrifício, eu vim votar”, resume.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Eduarda Brandão/CB/DA Press











