Pesquisa genômica sobre câncer usa realidade brasileira para prevenção

Estudo cria base de dados genéticos adaptada a realidade dos brasileiros para identificar pessoas com maior risco e elaborar estratégias para prevenção

13

Um biorrepositório desenvolvido no Hospital do Amor, em Barretos (SP), pretende estabelecer uma base de dados brasileira para ajudar o Sistema Único de Saúde (SUS) a identificar pessoas com maior risco de desenvolver certos tipos de câncer e, assim, elaborar estratégias de prevenção personalizadas para cada pessoa. O sistema reúne dados genéticos, epidemiológicos e de estilo de vida de pessoas com e sem câncer. São quase 40 mil amostras derivadas do sangue de 4.082 pessoas diferentes. A meta é dobrar o número de participantes do estudo para 8 mil nos próximos dois anos. Os primeiros tumores estudados são os de mama, colorretal e do colo de útero.

Estudo com dados brasileiros

O coordenador do estudo, Rui Manuel Reis, afirma, no relatório divulgado pela Agência Fapesp, que a iniciativa surge para preencher uma lacuna importante na medicina de precisão brasileira. Hoje, mais de 90% das pessoas incluídas nos estudos para investigar o risco de câncer têm ancestralidade europeia. Ou seja, boa parte do conhecimento disponível sobre a relação entre genética e risco de câncer foi construído a partir de uma genética não tão plural quanto a brasileira. 

Fique por dentro das notícias que importam para você!

“Não podemos construir uma medicina de precisão com uma régua que foi feita para uma população europeia, com uma genética europeia e um estilo de vida europeu”, afirma o pesquisador. 

Escore poligênico

Para identificar pessoas com maiores riscos, os pesquisadores vão usar o escore poligênico. É um cálculo que reúne informações genéticas e calcula o efeito combinado de variantes para chegar a uma estimativa da predisposição genética de uma pessoa para um determinado tumor. 

Hoje, para descobrir as variantes que realmente importam, os pesquisadores estão analisando milhões de variações genéticas e depois identificam os mais relevantes. A expectativa é que no futuro o teste possa utilizar apenas dezenas ou centenas delas, a partir de uma amostra de sangue. 

“Estamos construindo evidências científicas de quais são os escores que serão úteis para a população brasileira. No futuro, se esses marcadores forem validados, a ideia é identificar pessoas com maior risco e pensar em estratégias de prevenção e rastreamento mais personalizadas”, afirma Reis.

O repositório não está pronto para ser implementado no sistema de saúde. Ainda precisam ser definidos, testados em um número maior de pessoas e validados em outros centros de pesquisa. Entretanto, o pesquisador reitera a importância do Brasil ter a própria base de dados para a medicina de precisão. 

“Ao consolidarmos esse banco de dados, garantimos que a população brasileira não seja excluída da medicina de precisão. O objetivo é compreender a interação entre genética, estilo de vida e fatores ambientais, e desenvolver estratégias de prevenção mais personalizadas para a realidade do nosso país”, conclui.

*Estagiário sob supervisão de Ronayre Nunes

Fonte Correio Braziliense
Foto:  Reprodução / Agência Fapesp / Shutterstock