Eleita como deputada distrital em sua primeira disputa por uma vaga na Câmara Legislativa, Renata d’Aguiar (Republicanos) conquistou 28.172 votos e foi convidada do CB.Poder, programa do Correio em parceria com a TV Brasília, ontem. Em entrevista às jornalistas Denise Rothenburg e Ana Maria Campos, Renata relembrou a trajetória até a política e comentou sobre a futura atuação na Câmara, com a experiência de ex-subsecretária da Mulher e ativista do terceiro setor.
Como foi sua trajetória até chegar à área social?
Nasci no Rio de Janeiro e sempre servi em obras sociais, desde a infância. Quando cheguei a Brasília, passei no concurso para auditora federal aos 23 anos e busquei continuar realizando esse trabalho. Comecei a atuar com os catadores do lixão e fui voluntária em uma creche na região. Nesse contato, conheci as famílias e, quando subi ao maior lixão a céu aberto da América Latina, minha vida mudou completamente. Vi muitas mulheres trabalhando como catadoras, enquanto eu, tão jovem quanto elas, estava ali como auditora. A única diferença entre nós era a oportunidade que eu tive, e elas não. Naquele dia, decidi trabalhar para levar oportunidades às pessoas. O trabalho cresceu, especialmente após o fechamento do lixão, período de muita dificuldade, mas conseguimos ajudar muitos catadores por meio do Reciclando o Futuro.Play Video
Como foi o trabalho com os catadores após o fechamento do lixão?
O fechamento aconteceu de forma abrupta. Muitos trabalhadores eram invisíveis para o Estado, não recebiam benefícios e não tinham outra fonte de renda. Vi de perto pessoas passando fome, porque convivia com elas semanalmente. O governo construiu galpões para a separação de resíduos, mas nem todos tiveram acesso às cooperativas e, em alguns casos, o material disponível não era suficiente para garantir a renda. Ajudamos a oferecer capacitação em ofícios e empreendedorismo, além de apoiar a formação de cooperativas. Foi também quando comecei a atuar mais politicamente, buscando interlocução com o GDF para dar voz aos catadores.
O que despertou seu interesse pela política?
Foi viver essa desigualdade de perto e ver a fome entre pessoas que faziam parte do meu convívio. Em 2017, começamos a participar de palestras em faculdades e escolas, mas quem falava eram as próprias catadoras. Foi um processo de resgate da autoestima e do sentimento de pertencimento. Acima de tudo, elas passaram a ser enxergadas.
Como foi sua atuação na Subsecretaria da Mulher?
Foi uma experiência única. No início, durante um trabalho na Penitenciária Feminina do Distrito Federal (Colmeia), as mulheres reclamavam que recebiam apenas protetores de calcinha, e não absorventes. Ao investigar o motivo, descobrimos que o setor de compras era composto apenas por homens, que consideravam os produtos equivalentes ao analisar as descrições e os preços. Aquilo me mostrou a importância de nós, mulheres, ocuparmos todos os espaços para dar voz às nossas próprias necessidades e lutas.
O que é necessário para reduzir os casos de feminicídio no DF e no Brasil?
É preciso integrar as secretarias, garantir orçamento e priorizar as políticas públicas para as mulheres. Passei três anos na Subsecretaria da Mulher e entendi que essa responsabilidade não é apenas da pasta. A Segurança Pública e a Educação também precisam atuar, especialmente na formação das crianças, para que possamos transformar essa cultura desde a infância. Também precisamos combater a revitimização, ou violência institucional. A mulher deveria contar sua história uma única vez, e o Estado deveria trabalhar de forma integrada para atendê-la. Hoje, ela precisa repetir o relato em diferentes órgãos e, muitas vezes, é atendida por profissionais que não compreendem a dor envolvida nesse processo. Eu vou estar lá na Câmara Legislativa fortalecendo em termos de recurso, em termos de diálogo, para que a gente possa ter essa integração.
Qual será o seu primeiro projeto como deputada?
Eu devo muito ao terceiro setor. Quero buscar estabelecer diretrizes entre as instituições da sociedade civil e o governo: seria um fórum, para que a gente possa fortalecer a voz das organizações sem fins lucrativos e incentivar a transparência das políticas públicas. É um projeto simbólico, seriam diretrizes para que haja esse diálogo. Um ponto que me marcou durante a minha passagem pela SMDF foi o meu contato com algumas mães atípicas que perderam seus filhos. Elas viviam em função deles e abriram mão das suas vidas profissionais, ficando, muitas vezes, dependentes do benefício social do filho. Elas vivenciam o luto da perda do filho e o luto financeiro, porque elas já não sabiam como trabalhar. Eu vou trabalhar com um benefício de transição para as mães atípicas. Quero ajudá-las a se recolocar na sociedade, no mercado de trabalho, para que elas possam se reerguer.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Ed Alves CB/DA Press











