Pesquisadores liderados pelo King’s College London, na Inglaterra, analisaram dados de mais de 2,5 milhões de adultos, dos quais 55 mil haviam sido diagnosticados com fibromialgia. Os cientistas identificaram variantes no DNA em 26 regiões do genoma que afetam o risco de desenvolver a condição. Além disso, o estudo publicado nesta terça-feira (28), na revista Nature Medicine, destaca que a maioria dos genes dessas regiões está envolvida na função cerebral e nervosa.
De acordo com o estudo, a fibromialgia é caracterizada por dor e sensibilidade generalizadas, fadiga, problemas de sono, memória e humor. Apesar de afetar cerca de 2% da população mundial, as causas biológicas permanecem obscuras.
De acordo com Frances Williams, autora sênior do artigo e professora de epidemiologia Genômica do King’s College London, ao estudar o DNA de mais de 2 milhões de pessoas, os cientistas sugerem que a fibromialgia representa um problema no processamento da dor.
Sandra Maria Andrade, reumatologista do Hospital Santa Lúcia Sul (HSLS), detalha que, normalmente, a fibromialgia se desenvolve a partir de um distúrbio dos neurotransmissores e pode se iniciar com uma dor aguda. “A gente percebe que o paciente tem um limiar de dor mais baixo. Então, qualquer trauma, qualquer ferida cirúrgica ou até síndromes dolorosas, como enxaqueca ou dor menstrual, podem contribuir. Pessoas que têm doenças crônicas e convivem com dores constantes acabam perdendo esse equilíbrio. Essa dor cronifica e aumenta de intensidade, o sistema nervoso central entende que o alerta de dor que ele está emitindo não está sendo percebido.”
Doença de Huntington
Das 26 variantes genéticas identificadas, a mais fortemente associada ao risco de fibromialgia estava localizada no gene HTT. Os cientistas frisam que diferentes mutações nele causam a doença de Huntington, uma condição neurodegenerativa grave, progressiva e fatal.
Outra variante apontou para um receptor chamado GPR52, que regula os níveis de HTT. Esse receptor já está sendo investigado como um possível alvo terapêutico para a doença de Huntington.
Para Michael Wainberg, pesquisador do Instituto de Pesquisa Lunenfeld-Tanenbaum e da Universidade de Toronto, no Canadá, e coautor sênior do artigo, o trabalho muda fundamentalmente a forma como pensar sobre a fibromialgia. “Durante décadas, os pacientes foram ignorados ou informados de que sua dor era simplesmente psicológica. Nossas descobertas confirmam que a condição tem uma clara base biológica.”
O estudo revelou ainda uma sobreposição genética substancial entre a fibromialgia e uma série de outras condições, incluindo dor lombar, síndrome do intestino irritável e transtorno de estresse pós-traumático. Os pesquisadores acreditam que mecanismos biológicos compartilhados dentro do sistema nervoso podem tornar as pessoas suscetíveis a vários problemas como esses, explicando por que eles frequentemente aparecem juntos.
“Sabemos que as síndromes de dor crônica se agrupam em indivíduos e famílias e são geneticamente semelhantes. Intervir nos mecanismos comuns subjacentes a elas pode potencialmente beneficiar todo um conjunto de distúrbios”, frisou Williams.
quisa, a genética não é o único fator determinante para o desenvolvimento da fibromialgia. Os autores suspeitam que mesmo pessoas portadoras de muitas variantes associadas à condição necessitam de outros fatores de risco para desencadear a síndrome.
Conforme o endocrinologista Rafael Suhett, além da genética, fatores como estresse crônico, traumas físicos ou emocionais, infecções, privação do sono e sedentarismo podem contribuir para o desenvolvimento da fibromialgia. Também é importante investigar condições como hipotireoidismo, deficiência de vitamina D e deficiência de ferro, que podem agravar sintomas como dor, fadiga e indisposição.
Fonte Correio Braziliense
Foto: Image by Magnific










