A vida de Josiana dos Santos recomeçou em 23 de agosto deste ano, data em que foi submetida a um transplante simultâneo de fígado e de rim no Hospital Brasília. Aos 52 anos, a empresária e corretora de imóveis celebra o procedimento depois de dois anos e meio de piora dos sintomas da doença renal policística, condição genética caracterizada pelo crescimento de cistos nos rins e responsável pelo aumento do tamanho dos órgãos. Um mês após a cirurgia, ela conta sentir diferença. “É como se você fosse um bebê de novo começando a dar os primeiros passos. O doador me deu a oportunidade de uma nova vida”, descreve.
Josiana recebeu o diagnóstico aos 26 anos. Desde então, os cistos vinham crescendo de forma progressiva. Em fevereiro de 2024, ela estava com 7% da função renal, o que tornou necessário o tratamento de hemodiálise três vezes por semana. A doença comprometeu o fígado da empresária. Ela sentia enjoo, cansaço, falta de ar e estava desnutrida devido à falta de fome. A quantidade de água era limitada a um litro por dia. “Sempre tive uma vida muito ativa. De repente, eu me vi limitada”, comenta.
A corretora de imóveis ficou preocupada em como faria para seguir com sua rotina quando soube que teria que fazer hemodiálise e estava se encaminhando para um transplante. Como ela tinha histórico de doença renal policística na família, os parentes não podiam ser doadores vivos. Então, ela precisou aguardar na fila. “Você pensa que a vida vai parar. Mas ela não para. Ela diminui o ritmo, mas continua. A hemodiálise te dá uma chance para continuar vivendo”, fala.
Moradora de Palmas (TO), a corretora de imóveis veio a Brasília em fevereiro para se consultar por indicação de outro profissional. Em agosto, ela foi chamada para realizar o transplante. A empresária recebeu a notícia de que havia oferta de fígado e de rim de um mesmo doador em uma sexta-feira à tarde enquanto finalizava seu dia de trabalho. “Ligaram e falaram que daria tudo certo. A lágrima desceu. Comecei a sorrir. O pessoal que estava trabalhando comigo não entendeu”, conta.
Em seguida, ela ligou para o filho e deu a boa notícia. Os dois passaram a procurar passagens o mais cedo possível para a capital. Ela foi para o aeroporto direto do trabalho com a roupa do corpo e uma mochila. Na manhã de sábado, foi internada para realizar o procedimento. Foram 12 horas de cirurgia. Doze dias depois, Josiane teve alta. Para ela, a recuperação está sendo tranquila. “Parece que está tudo voltando ao normal. Eu tinha o abdômen bem estendido Voltei, praticamente, para o corpo de antes. Também não tenho mais enjoo na hora de comer”, diz.
Doar, um ato de amor
O urologista do Hospital Brasília Fransber Rodrigues observa que o transplante duplo é de alta complexidade. No caso de Josiane, a operação foi dificultada por causa do tamanho do fígado, que pesava cerca de 9,5kg. Em média, ele pesa 1,5kg. O médico observa que o risco de rejeição não é maior em caso de transplante duplo. Isso ocorre porque, para cirurgias de rim e de fígado feitas em conjunto, os órgãos sempre vêm do mesmo doador. “Também existe uma certa proteção de forma que o manejo da rejeição do rim fica facilitado quando o fígado também é transplantado”, explica.
Rodrigues ressalta que, apesar de hoje haver mais doadores de órgãos, o número de pacientes na fila para transplante segue maior. De acordo com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), em 31 de agosto deste ano, havia 1.902 candidatos inscritos nas listas de espera para transplante de órgãos e córneas. Em 2026, foram realizados 428 transplantes de órgãos e tecidos no DF, ante 493 no mesmo período de 2025.
Josiane diz que sempre quis ser doadora, mas nunca imaginou estar em uma situação em que precisaria de dois órgãos. Sua vontade é agradecer aos familiares do doador. “O transplante mudou minha vida totalmente. Quando você vem fazendo hemodiálise e com algum problema hepático, seu tempo e qualidade de vida são reduzidos”, afirma. “Para a família, é o consolo, a alegria e a gratidão de salvar mais vidas. Não só a minha, como a de muitos outros”, completa.
A empresária considera doar um ato de amor, especialmente quando a autorização é dada no momento de perda de um ente querido. “É prevalecer a vontade do outro e continuar dando vida para outras pessoas. Para mim, é um recomeço. É continuar amando sua pessoa querida e dando aquele amor”, destaca.
Com a disposição renovada, Josiane deseja viajar com a família, algo que não pode fazer desde que os sintomas pioraram. “Quero conhecer vários lugares e pessoas, fazer coisas novas e seguir com a vida cada vez mais”, conclui.
A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) informa que a coordenação nacional das listas de espera para transplantes é responsabilidade do Ministério da Saúde, por meio do Sistema Nacional de Transplantes (SNT). No DF, a Central Estadual de Transplantes é responsável pela coordenação das atividades relacionadas à doação e aos transplantes no âmbito local, conforme as normas nacionais.
*Estagiária sob supervisão de Patrick Selvatti
Fonte Correio Braziliense
Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press











