Como é viver no Sol Nascente, considerado a maior favela do Brasil

O Sol Nascente superou a Rocinha na quantidade de unidades habitacionais, de acordo com o IBGE. Apesar de ainda ter sérias carências estruturais, o local é considerado pelo GDF como região administrativa desde 2019

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A maior favela do Brasil fica no Distrito Federal. Dados preliminares do Censo 2022 apontam que o Sol Nascente superou a Rocinha, no Rio de Janeiro, e já é a maior do país, com 32.081 unidades habitacionais, de acordo com informação exclusiva obtida pelo Correio, na última terça-feira (14/3), junto ao presidente interino do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Cimar Azeredo.

Em 2000, o Sol Nascente foi reconhecido como setor habitacional por meio do Decreto nº 330/2000. No entanto, logo depois, o decreto foi considerado inconstitucional e revogado. Apesar disso, a comunidade continuou crescendo cada vez mais até que, em 2019, foi reconhecida como região administrativa. “O nosso reconhecimento como RA trouxe, acima de tudo, dignidade aos moradores daqui”, pontuou o administrador regional do Sol Nascente, Cláudio Ferreira Domingues.

Hoje, a cidade conta com três unidades de saúde, três escolas públicas, um Centro Olímpico e Paralímpico (COP), além de vários projetos sociais e uma comunidade engajada. “A comunidade é muito unida aqui. As lideranças têm trabalhado para melhorar a nossa cidade a cada dia. O povo aqui é muito receptivo. Temos gente de várias regiões do Brasil, como Bahia, Maranhão e Piauí”, ressaltou o administrador regional.

O termo favela é uma nomenclatura coloquial usada para definir o que o IBGE classifica como “aglomerados subnormais”, que é uma forma de ocupação irregular de terrenos de propriedade alheia, públicos ou privados, para fins de habitação em áreas urbanas e, em geral, caracterizados por um padrão urbanístico irregular. Além disso, ausência de serviços de saneamento básico e estrutura urbana precária também são critérios que definem essas comunidades.

Cláudio Ferreira discorda da denominação favela para definir o local. “Na nossa visão, enquanto governo e comunidade, não vemos como uma favela. Somos uma cidade que cresceu de forma desorganizada, porém o GDF determinou que o Sol Nascente viraria uma região administrativa em 2019. Começamos como uma grande invasão, mas hoje nos enxergamos como uma cidade em desenvolvimento”, avaliou ele.

Carências

“Morar aqui é sofrimento. Mas, vai fazer o quê? É aqui que a gente tem condição de comprar um pedacinho de terra, porque é mais barato”, explica Josevaldo Rocha, pedreiro, 37 anos, que mora há dois anos no Trecho 3 do Sol Nascente, com a esposa e a filha de 5 anos. Na avaliação da comerciante Doralice Silva, 42, o péssimo atendimento do transporte público é outro problema para quem vive na região. Em muitas localidades do Sol Nascente, não há ônibus e, com isso, as pessoas precisam caminhar mais de um quilômetro em meio à lama ou à poeira para poder chegar à parada de ônibus, ou se arriscar pedalando, como ela faz para levar a filha todo dia na escola. “O carro não presta mais para nada, é tanta buraqueira e chuva que quando precisamos levar as crianças, vamos de bicicleta. A gente fica caindo da bicicleta, escorregando, porque não tem asfalto”, comentou ela.

Doralice explica que a região do Trecho 3 não é vista pela administração do Sol Nascente. “Quando eu vou ao posto de saúde, vejo que a gente fica esquecido. A briga é feia para poder atender quem mora aqui na região. A saúde aqui é uma negação”, ressaltou. O comerciante e líder comunitário local José de Carvalho Araújo, 47, mora no Trecho 3 do Sol Nascente desde 2006. Desde então, batalha para melhorar as condições do asfalto e do saneamento básico do local. “Quando cheguei aqui, lutei, corri atrás, pedi um sistema de lixo, asfalto e saneamento. Há uns três anos, tiraram o asfalto para colocar águas fluviais e rede de esgoto, mas nunca repuseram o asfalto. Pago IPTU e IPVA para vir benfeitorias para nós, mas a situação está difícil”, declarou. “Já tem mais de 15 anos que vivo aqui. Apesar de tudo, gosto de morar aqui. A comunidade aqui é unida”, acrescentou José de Carvalho.

Sobre a questão, o administrador informou ao Correio que será resolvida em breve. “Já temos uma empresa contratada, por meio de licitação, para resolver a questão da drenagem e asfalto do Trecho 3. Este ano, o Sol Nascente está se transformando em um grande canteiro de obras”, anunciou Cláudio Domingues. “Entre o fim de março e o começo de abril, vamos inaugurar também um restaurante comunitário. Temos ainda projetos para construção de novas escolas e creches”, completou o administrador.

Para quem mora por ali, sair para trabalhar em época de chuva forte, é arriscado, conta Fábio Nunes, 49, técnico em eletrônica que mora há oito anos na região. “Se tiver em tempo de chuva igual as últimas que tiveram, ninguém sai para trabalhar, porque é arriscado”, frisou ele. O porteiro Everaldo Evangelista, 45, mora há quatro anos na região. “Temos encontrado todo tipo de dificuldade, e a chuva tem destruído tudo. A água da chuva acumula e forma um rio aqui, ela vem forte e desce toda para cá, destruindo as casas. A energia elétrica por aqui é muito fraca também”, contou ele.

Cultura e lazer

Desde 2020, o Sol Nascente conta com um Centro Olímpico e Paralímpico (COP), onde aulas gratuitas de 26 modalidades esportivas são oferecidas gratuitamente à população local. Há opções para crianças a partir dos 4 anos, adolescentes, adultos e idosos. Aos finais de semana, o centro fica à disposição da comunidade e a população pode utilizar as quadras poliesportivas e a estrutura do centro. Atividades como colônias de férias e festas juninas também fazem parte do calendário do COP. “Aqui, oferecemos, inclusive, uma modalidade de alto rendimento que é o atletismo. Temos como professores ex-atletas olímpicos, como Hudson Souza e Eronildes Ribeiro”, explicou o coordenador pedagógico Wellisson Dias.

A dona de casa Maria Elziane Cabral, 35, leva a filha, Yarla Cabral, 7, duas vezes por semana para fazer aula de natação no COP do Sol Nascente e relata que é o momento mais esperado da semana da menina. “Posso dizer que esse centro olímpico é um dos lados bons de viver aqui no Sol Nascente. Minha filha adora as aulas de natação”, relatou.

A estudante de odontologia Raiane Costa, 33, também leva a filha, Esther Costa, 7, para fazer aulas de natação. “Moro aqui no Sol Nascente há quatro anos e acho aqui bem tranquilo. Antes, só tinha centro olímpico no Setor O. Quando abriram um centro aqui, achei ótimo, porque ficou mais perto para mim. Minha outra filha, de 12 anos, também faz atividades no centro. O Sol Nascente tem evoluído bastante com relação ao que era antes”, disse.

Por Correio Braziliense

Foto: Carlos Vieira / Reprodução Correio Braziliense

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